De São Paulo a Xalapa, no México, maestro encanta plateias com a sua arte

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Era pouco antes das 9h quando o maestro Lanfranco Marcelletti Jr. chegou à Sala São Paulo, no centro da cidade. Sob o sol que já brilhava, desceu calmamente do carro e dirigiu-se a uma das entradas. De repente, ele sumiu. Na verdade, Lanfranco tinha ido para um lugar mais reservado, onde pudesse se concentrar. Precisava…

Era pouco antes das 9h quando o maestro Lanfranco Marcelletti Jr. chegou à Sala São Paulo, no centro da cidade. Sob o sol que já brilhava, desceu calmamente do carro e dirigiu-se a uma das entradas. De repente, ele sumiu. Na verdade, Lanfranco tinha ido para um lugar mais reservado, onde pudesse se concentrar. Precisava estudar as peças que ensaiaria ainda naquela manhã de sábado e apresentaria à noite para o grande público. Era a primeira vez que as batutas do recifense, de 52 anos, iriam reger uma orquestra na Sala São Paulo, considerada uma das melhores salas de concerto do mundo.

A capital paulista era a última parada da Orquestra Sinfônica de Xalapa (OSX), que estava há dez dias em turnê pelo Brasil e já havia passado por capitais, como Recife (PE), João Pessoa (PB), Natal (RN) e Rio de Janeiro (RJ). Regida por Lanfranco desde 2012, a orquestra é a mais antiga do México e conta atualmente com 95 integrantes. Uma despedida em grande estilo.

Localizada em Santa Cecilia, a Sala São Paulo é uma das seis salas de shows e concertos do distrito, segundo dados do Observatório Cidadão. Já a subprefeitura da Sé, da qual Santa Cecília faz parte, possui 60, o que a coloca como a segunda maior na quantidade desse tipo de equipamento cultural na cidade. Inaugurada em julho de 1999, a Sala São Paulo faz parte do Centro Cultural Julio Prestes, tem capacidade para 1.484 espectadores e pertence ao Governo do Estado. Ela também é a casa da Osesp (Orquestra sinfônica do Estado de São Paulo).

A passagem da OSX pela capital paulista foi rápida. Ela chegou à cidade no dia anterior à apresentação e, assim que desembarcou, alguns dos seus integrantes foram para o Instituto Baccarelli dar aulas de violino, contrabaixo, trompete, viola e trompa. Lanfranco também esteve por lá e participou do ensaio da Orquestra Juvenil Heliópolis.

Lanfranco Marcelletti participa de ensaio no Instituto Baccarelli Foto: Luis Fernando Soní/ OSX
Lanfranco Marcelletti participa de ensaio no Instituto Baccarelli     Foto: Luis Fernando Soní/ OSX

Adans D’Angelo, 21, e Mariana Freires, 21, são dois dos 60 jovens que compõem a orquestra. Ele é contrabaixista e frequenta o Baccarelli há 13 anos. Como todos que ingressam no instituto, que forma jovens músicos, ele começou no coral e depois passou para as aulas de instrumento. Fez dois anos de violino, mas não gostou por conta de sua sonoridade aguda. Foi então que ele decidiu aprender a tocar contrabaixo.

Já Mariana é violista, mas diferentemente do colega, odiava frequentar o instituto. “Minha mãe me obrigava a ir para o coral e ela ia a todas as apresentações. Se não fosse isso, eu já tinha desistido na primeira semana”, lembra. Com o tempo e a insistência da mãe, Mariana foi se apaixonando pela música. Começou a aprender viola e hoje não se vê fazendo outra coisa. Além de freqüentar o instituto, a única musicista da família também cursa música na USP (Universidade de São Paulo) e se forma no ano que vem.

Tanto Adans como Mariana moram próximo ao Baccarelli, em bairros do distrito do Sacomã, na subprefeitura do Ipiranga. O Sacomã, ao contrário de Santa Cecília, não possui nenhuma sala de show e concertos. Segundo Mariana, há um projeto, que ainda não saiu do papel, para a construção de um teatro que serviria para ensaios e apresentações das orquestras do instituto. “Eu acho péssimo não ter uma sala de concerto aqui na região”, diz a violista. Para chegarem ao Teatro Municipal e à Sala São Paulo, onde normalmente se apresentam, os alunos mais velhos utilizam o transporte público, algumas vezes carregando os instrumentos. Apesar da dificuldade para se chegar, os jovens do Baccarelli são frequentadores assíduos, principalmente da Sala São Paulo.

Às 21h, do último dia 15, tinha início a apresentação da OSX e Adans estava na lá na plateia, com os olhos atentos e vivendo as sensações que só o lugar pode proporcionar. Sensações estas, compartilhadas também por quem já é músico veterano, como Lanfranco. “Já estou nervoso desde agora. Me imaginar, não só regendo, mas trazendo a orquestra com a qual estou trabalhando para a Sala São Paulo é aterrorizante!”, cai na gargalhada o maestro, um dia antes do concerto.

Ele é arretado

Apresentação da Orquestra Sinfônica de Xalapa na Sala São Paulo Foto: Luis Fernando Soní/ OSX
Apresentação da Orquestra Sinfônica de Xalapa na Sala São Paulo     Foto: Luis Fernando Soní/ OSX

Assim como Mariana, Adans e tantos outros, Lanfranco Marcelleti Jr. iniciou ainda jovem na música. Aos dez anos, já tinha aulas particulares de violão. Aos 12, começou a aprender piano em uma escola privada, no bairro em que morava, com professores do Conservatório Pernambucano de Música. Seus pais, Lucimar e Lanfranco, não eram favoráveis que ele fizesse música e queriam outra profissão para o filho. “Eles ficavam preocupados”, lembra.

O terceiro de quatro irmãos, Lanfranco cresceu no bairro da Boa Vista, região central de Recife, em uma casa espaçosa, situada em uma rua movimentada. Por isso, as brincadeiras, principalmente com Aldo, seu irmão mais novo, eram todas do portão para dentro. Quando a família se mudou para Boa Viagem, na zona sul, a rua era de terra, bem mais sossegada.

Ele foi uma criança como qualquer outra, que aproveitou demais a infância, mas que nutria desde cedo uma paixão pela música. “Professoras, que me deram aula no Jardim de Infância, me contam que eu tinha uma atração enorme pelo piano desde então. Quer dizer, não era pelo instrumento, mas pela música que saía dele”, conta. Após dois anos na escolinha de música, onde tinha aulas práticas, teóricas e de solfejo, ele foi para o Conservatório Pernambucano de Música.

Aos 17 anos, para não contrariar os seus pais, prestou vestibular para engenharia química e passou na Universidade Federal de Pernambuco. Durante umas férias de julho da faculdade, Lanfranco resolveu fazer um curso de piano em São Paulo, com Maria Regina Seidhofer. Ela, que vivia em Viena, na Áustria, o convidou para estudar no país europeu e ele foi. Mas, seus pais só permitiram a viagem na condição dele passar apenas um semestre. O jovem passou oito anos. Nesse período, estudou composição, regência, orquestração e fez mestrado em piano em Zurique, na Suíça. Aos 25 anos, perdeu a sua avó, que morava na Itália e com quem ele tinha uma enorme ligação. A tristeza fez com que Lanfranco jogasse tudo para o alto e voltasse ao Brasil.

Lanfraco transforma o xote em música clássica durante concerto em Recife     Facebook/OSX

 

Sem emprego, foi para São Paulo morar com a irmã Blenda. Em pouco tempo, ele começou a trabalhar na produção do programa “Primeiro Movimento”, da TV Cultura. “Gostei muito desse ambiente de televisão. Aí uma vez o diretor de produção me disse que tinha uma vaga aberta para músico e eu fui. Então, além de fazer toda a produção, eu tinha que ir na hora da gravação com os câmeras, com a partitura e dizer: aqui entra essa imagem, aqui entra esta outra… Mas, percebi que era bom ter umas aulas de regência para entender como se lê uma partitura. Então, a regência nasceu por uma casualidade laboral”, brinca.

Em uma das ocasiões, o maestro Ronaldo Bologna foi ao programa e Lanfranco não teve dúvidas. Pediu para ele lhe dar aulas de regência. No decorrer das aulas, Bologna notou que o seu aluno tinha jeito e arranjou um emprego de regente assistente para ele na Orquestra da LBV (Legião da Boa Vontade). Lá, o recifense regeu a sua primeira peça.

Segundo Lanfranco, o tempo que morou em São Paulo foi muito bom, mas o salário que ganhava na TV Cultura não dava para pagar as despesas na cidade. Voltou para Recife decidido a cursar psicologia. Mas, a música o perseguia mesmo ele querendo desistir dela. Já na capital pernambucana, uma amiga o convidou para reger a orquestra em que ela tocava e, em pouco tempo, ele já era o regente assistente.

Foi nessa época que Lanfranco conheceu o maestro Diogo Pacheco, quem o apresentou ao também maestro, Eleazar de Carvalho. Eleazar ministrava um curso no interior de São Paulo e Lanfranco tornou-se um dos seus alunos. “Quando ele [Eleazar] me viu regendo, me chamou para ir para Yale, nos Estados Unidos, onde ensinava. Eleazar é uma grande inspiração para mim até hoje. Me ajudou muito”, ressalta.

A conquista da América

Lanfranco Marcelletti rege a OSX no Theatro Municipaldo Rio de Janeiro Foto: Luis Fernando Soní/ OSX
Lanfranco Marcelletti rege a Orquestra Sinfônica de Xalapa no Theatro Municipal do Rio de Janeiro     Foto: Luis Fernando Soní/ OSX

Para Lanfranco Marcelletti Jr., a sua carreira foi cheia de casualidades, desde os tempos em que era aluno de Maria Regina Seidhofer, nos anos 80, até os dias de hoje. Após cursar a universidade em Yale, o maestro ganhou um emprego por lá. Na terra do Tio Sam, ele ainda foi professor e regente na Universidade de Massachusetts. Em 2011, precisou se dividir entre os Estados Unidos e a sua amada Recife. Lanfranco foi chamado para ser regente na Orquestra Criança Cidadã, um projeto de inclusão social na capital pernambucana que busca a profissionalização musical de crianças e jovens que moram no bairro do Coque.

O México apareceu na vida do maestro quando ele ainda estava nos Estados Unidos. Em 2006, Lanfranco foi convidado para reger um concerto no país vizinho, na cidade de Xalapa, capital do estado de Veracruz. Nos anos seguintes, ele voltou algumas vezes à cidade mexicana, na mesma condição. Com a saída do regente titular, o nome do brasileiro foi incluído em uma votação para eleger quem assumiria a orquestra e ele foi o escolhido.

“É diferente reger em qualquer lugar, seja em outro país ou em um cidade dentro de um mesmo país, porque cada orquestra tem a sua dinâmica. Tem uma maneira de funcionar, de receber, de responder. Tem uma expectativa. Quando você vai como regente convidado por uma semana, não precisa se preocupar com os problemas da orquestra, do músico. Quando você entra para ser o regente titular, aí eles [os problemas] vêm naturalmente e as relações mudam também. Mas, isso não quer dizer que muda para pior. Passamos [ele e os músicos] a nos conhecer mais profundamente. Se você, como regente, quer fazer algum trabalho interessante, vai ter que botar a mão na ferida, conhecer a pessoa com quem trabalha e ela deixar se conhecer. Claro, a gente no Brasil tem uma maneira de funcionar. E olhe que a mexicana não é tão diferente”, ressalta.

Lanfranco vive um dia a dia bastante atribulado. Além de seu trabalho como maestro e a rotina de ensaios, ele também é o diretor administrativo da orquestra. Talvez por isso, casar e ter filhos seja algo difícil atualmente para ele. Mas, não deixa de ser o que deseja futuramente.

No âmbito profissional, o recifense quer um dia criar uma orquestra jovem profissional, passar aos novos músicos o quanto é importante se reconhecer como parte de um grupo e mostrar que não pode existir o “eu venho aqui, toco e vou embora”. Para ele, essa mudança de pensamento e comportamento melhora muito a qualidade de qualquer trabalho no meio.

“Eu gosto muito do que eu faço e meu trabalho é a minha paixão. Eu começo a reger e parece que um mundo mágico se abre. É uma profissão muito especial. É preciso muita persistência e, mais do que tudo, topar muita coisa, estar aberto para várias oportunidades”, se enche de orgulho Lanfranco.

A música é uma paixão para o maestro Lanfranco Marcelletti Foto: Luis Fernando Soní/ OSX
A música é uma paixão para Lanfranco     Foto: Luis Fernando Soní/ OSX

 

Foto principal: Rafael Carneiro