“O imigrante tem as marcas das saudades”, diz conselheiro boliviano

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Era tarde e uma forte chuva de verão caía sobre São Paulo, quando Samuel Dany Añez, 37, recebeu o 32xSP em seu local de trabalho para um bate-papo sobre imigração e sobre a própria trajetória de vida. Há oito anos, o boliviano reside na capital paulista e há três é conselheiro participativo do Jabaquara, na…

Era tarde e uma forte chuva de verão caía sobre São Paulo, quando Samuel Dany Añez, 37, recebeu o 32xSP em seu local de trabalho para um bate-papo sobre imigração e sobre a própria trajetória de vida. Há oito anos, o boliviano reside na capital paulista e há três é conselheiro participativo do Jabaquara, na zona sul da cidade.

Nascido em Santa Cruz de la Sierra, Añez viveu na cidade mais populosa da Bolívia por poucos anos. Mudou-se para a Argentina com a família e retornou para o país natal para servir ao exército. Depois, partiu para o México para trabalhar voluntariamente em uma ONG que atua em ações humanitárias. Acabou sendo contratado pela instituição e permaneceu no país cerca de quatro anos e meio.

Saiu do México em direção ao Brasil em busca de tratamento para um problema de saúde. Foi atendido na Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro, zona sul de São Paulo, e prosseguiu no Hospital das Clínicas. “Fiquei um pouco mal no México. Vim para cá e acabei ficando por causa do tratamento, que demorou mais do que eu imaginava. No México, um imigrante não tem acesso fácil à saúde. Lá é tudo pago”, explica.

Desde que se mudou para a capital paulista, morou em Parelheiros, no Campo Limpo, no Parque São Lucas, e até em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Há quatro anos, se fixou no Jabaquara. Trabalhou também em diversos lugares. Já deu aulas de espanhol, trabalhou no serviço de proteção social a crianças e adolescentes vítimas de violência, entre outras atividades. Atualmente, é assistente social no núcleo psicossocial jurídico do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), da Prefeitura de São Paulo.

Foi na cidade que Añez estudou serviço social. Ele conseguiu uma bolsa integral por meio do Prouni, programa do governo federal. Agora, ele se prepara para fazer mestrado e pretende prestar concurso público. Durante a graduação Añez foi muito questionado sobre o fato de ser boliviano e estar estudando graças a uma bolsa de estudos, algo que diziam ser difícil até para os brasileiros. Añez comenta que a implicância passava a ideia de que um imigrante não tinha o potencial para ser aprovado em um processo seletivo e receber uma bolsa de estudos honestamente. “Dava a entender que o imigrante não tinha a capacidade de ter algo a não ser por ações ilícitas de alguém, ou por ter ‘comprado’ a bolsa. Mas, o processo seletivo é igual ao dos brasileiros, fazemos a mesma prova e ainda passamos pelo critério da faculdade”, diz. Para ele, há um pouco de xenofobia nesse caso.

No Salar de Uyuni, deserto de sal na Bolívia, Samuel Añez segura a wiphala, bandeira dos povos indígenas/ Crédito: Acervo Pesssoal

Outra questão que incomoda Añez é a criação de estereótipos e a ideia de que boliviano tem aparência uniforme. “Você não é boliviano. Boliviano é baixinho e tem cabelo liso”, cita um dos comentários que ouve normalmente. O assistente social explica que possui ancestralidade quéchua, mas a família é bastante miscigenada. “Tenho cabelo encaracolado, mas as nossas raízes são indígenas. Talvez, por desconhecimento, as pessoas acham que todo mundo é igual”.

Generalização como essa também aparece nos motivos pelos quais as pessoas migram. Verônica Yujra, 37, referência para falar sobre imigração, segundo Añez, é uma das criadoras do coletivo “Sí, yo Puedo”. Ela acredita que há um estigma muito forte de que quem migra é por questões econômicas. “As pessoas migram em busca dos sonhos. Seja ele o de se manter vivo ou o de conseguir comprar algo para os filhos. É a mesma situação das pessoas que moram aqui e vão atrás dos sonhos em outros países”, argumenta. Verônica veio de La Paz, capital boliviana, quando tinha oito anos de idade.

“A gente não está aqui porque a gente quer. Viemos porque houve algo que nos fez migrar. Sejamos bolivianos, africanos, asiáticos, haitianos, nós chegamos com uma história”, diz Añez. O jovem rapaz também chama a atenção para a saudade. “O imigrante tem as marcas das saudades. Nós temos saudades da nossa terra, da nossa gente”.

Os parentes de Añez estão espalhados pelo mundo. Alguns estão na Bolívia, outros na Argentina e na Espanha. Por aqui, ele só tem a sua filha, fruto de um antigo relacionamento. “Sinto saudade de estar respirando o ar do meu país, de me sentir livre, de não ser um imigrante, porque aqui sempre vou ser um”, finaliza.

Ao lado da tia paterna, parte da família de origem Quéchua, povo indígena/ Crédito: Acervo Pessoal

Atuação no Conselho Participativo Municipal

Añez se candidatou pela primeira vez no biênio 2014-2015 por sugestão de uma professora da faculdade. A segunda candidatura ocorreu por não ter encontrado outro imigrante da região interessado na atividade. Añez explica que as reivindicações devem fazer parte do território e não são restritas ao tema da imigração. Na prefeitura do Jabaquara, as demandas são ligadas, principalmente, a casos de inundações e moradias. Esta, devido a desapropriações por conta de obras.

De acordo com dados do Observatório do Cidadão de 2015, o Jabaquara ocupa uma posição ruim no quesito moradia. Está entre as 10 prefeituras regionais com o maior número de favelas, por exemplo. São 73.200 domicílios no total, sendo que 18,3% deles estão localizados em favelas. Dentre os lugares que Añez morou na zona sul, Jabaquara só perde para o Campo Limpo, que ocupa a primeira posição.

Os dados ilustram a nota baixa que “igualdade no acesso à moradia” recebeu no Irbem 2017 (Indicadores de Referência de Bem Estar), pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope. A média de satisfação para esta área foi 2,8. Já para “o controle de enchentes em conjunto com manutenção de bueiros e galerias”, a nota média foi 3,4.

Añez comenta que ser conselheiro está sendo uma experiência muito bacana, mas não pretende disputar o cargo voluntário pela terceira vez. Ele espera encontrar outros imigrantes que queiram se candidatar no Jabaquara. O boliviano também salienta que, apesar de o foco da sua atuação ser a reivindicação local, procura se comunicar com outros conselheiros imigrantes. “A gente tenta se fortalecer com outros conselheiros porque temos pautas em comum, como o direito ao voto e as taxas abusivas para tirar os documentos”, diz.

No início de janeiro, Añez foi assaltado e ficou sem os documentos. Para tirar a segunda via do RNE (Registro Nacional de Estrangeiro), documento similar ao RG, precisou pagar a taxa de R$ 502,78 para a Polícia Federal, apesar de ter apresentado o boletim de ocorrência. Para Añez, essa taxa é um exemplo de barreira que o imigrante enfrenta no Brasil, mesmo estando com a documentação regularizada.

“Queremos os mesmos direitos que qualquer brasileiro. Queremos votar e transitar livremente. Queremos ter acesso à saúde e à educação sem os preconceitos que nós vivenciamos”, finaliza o boliviano.

O direito ao voto é uma importante luta do povo migrante/ Crédito: Acervo Pessoal