Apesar de legalizadas, rádios comunitárias ainda buscam alternativas para sobreviver

Publicado em Categorias Comunicação, Ipiranga, Parelheiros, Perus, PinheirosTags ,

De acordo com a regulamentação do serviço de radiodifusão comunitária, de 1998, as emissoras com esse caráter devem servir, entre outras funções, para dar “oportunidade à difusão de ideias, elementos de cultura, tradições e hábitos sociais da comunidade”. Quase 20 anos depois, com dificuldades para se manter, algumas das 34 emissoras presentes na capital paulista acabam não desenvolvendo trabalhos em prol da comunidade onde operam. Um dos motivos é a falta de verba para mantê-las.

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De acordo com a regulamentação do serviço de radiodifusão comunitária, de 1998, as emissoras com esse caráter devem servir, entre outras funções, para dar “oportunidade à difusão de ideias, elementos de cultura, tradições e hábitos sociais da comunidade”. Quase 20 anos depois, com dificuldades para se manter, algumas das 34 emissoras presentes na capital paulista acabam não desenvolvendo trabalhos em prol da comunidade onde operam. Um dos motivos é a falta de verba para mantê-las.

Crédito: Rafael Carneiro

José Roberto Fernandes, 63, é radialista de profissão. Ele recorda que, antes da legalização da radiodifusão comunitária, em 1996, as rádios desse tipo eram tratadas como piratas. “Eu sempre disse que não era pirata”, lembra. Fernandes, que já trabalhou em grandes emissoras, como a Tupi, foi pioneiro na legalização das radio comunitárias, com a Rádio Conexão, em Perus, zona norte da capital.

Hoje, a emissora transmite campeonatos esportivos, como as Copas Caieiras e Perus, que são torneios comunitários de futebol. Fernandes afirma ter uma audiência de 17 a 18 mil ouvintes na emissora. Somente no distrito de Perus vivem 83.777 pessoas, segundo os dados mais recentes do Observatório Cidadão. Porém, para cair no gosto popular, o radialista diz que a caminhada foi longa.

“Fiquei dois anos pagando do meu bolso [para manter a rádio no ar].” Hoje, ele afirma que luta pela modificação da legislação, para que passe a ser permitido patrocínios. “O governo deu as concessões, mas “engessou” a gente. Por isso, não dá pra fazer dinheiro. Nós tivemos que mudar de lugar porque não tínhamos como pagar o outro [estúdio], que tinha até auditório”.

Mesmo com a autorização para a operação pelo Ministério das Comunicações para operar, muitas rádios desistem. É o caso da antiga rádio comunitária do bairro do Brooklin, a Ideia. A emissora da zona oeste possuí uma página no Facebook abandonada há mais de quatro anos. O link que direcionava  para o site da rádio também está inacessível. Apesar disso, ela ainda aparece como “ativa” no site da Receita Federal. A reportagem tentou entrar em contato com Sandro Moreto, que no documento consta como presidente da associação que detém a licença para operar a Ideia, mas não o encontrou.

Aluguel de horários

Para aumentar o seu faturamento, as emissoras de televisão comercial acabam recorrendo ao aluguel de horários. Nas rádios comunitárias ocorre o mesmo. Pelo menos uma das três rádios ouvidas pelo 32xSP confirmou ter recebido propostas para arrendar toda a programação para instituições religiosas. Segundo a reportagem apurou, a prática também era comum nos últimos meses de funcionamento da Radio Ideia.

Sonho

Adenilson Gonçalves, 34, descobriu que havia uma rádio comunitária em seu bairro de uma maneira inusitada. Morador do distrito de Parelheiros, ele foi a um mercado da região e notou a boa voz do rapaz que anunciava as ofertas no estabelecimento. Sugeriu que ele trabalhasse em uma emissora e o locutor logo disse que já trabalhava. A breve conversa acabou levando o baiano de Feira de Santana (BA), radicado em São Paulo desde os 18 anos, pela primeira vez a um estúdio de rádio. Foi na Rádio Futura que o seu sonho de criança se tornou realidade.

“Eu ouvia um jornalista chamado Chico Paraíba. Era como se fosse um Gil Gomes da época. Sempre tive curiosidade de saber como era um estúdio”, afirma o marceneiro que tem o rádio como um hobby. Hoje, Gonçalves apresenta um programa musical às segundas e quartas-feiras de maneira voluntaria na Futura.  As rádios comunitárias não podem, por lei, remunerar funcionários ou diretores.

Quando questionado sobre o que falta para a rádio em que trabalha, ele é taxativo: jornalismo. “A gente perde muito furo de reportagem porque não podemos pagar ninguém pra fazer”, explica o rapaz, que ainda conserva o sonho de cursar uma faculdade de jornalismo. No âmbito jornalístico, um furo de reportagem é o jargão para aquela informação veiculada primeiro, antes dos demais veículos.

Marcos Vinicius Gaspar, 29, coordenador artístico da Radio Show, emissora comunitária que cobre, entre outros locais, a região da Vila Monumento, no Ipiranga, ressalta a importância da comunidade na gestão da rádio. “Logo no começo, tivemos que organizar um abaixo assinado para conseguir a concessão da radio” lembra ressaltando que o documento teve algumas centenas de assinaturas.

Gaspar também recorda de momentos em que o jornalismo se tornou a principal atração da programação da emissora, como quando houve um boato de que a SPTrans iria cancelar uma das linhas de ônibus que atende a região. A Rádio Show foi procurada pelos moradores para esclarecer a situação. “Contatamos a empresa, entramos ao vivo com ela e conseguimos desmentir o boato”, orgulha-se.

 

Foto: Rafael Carneiro