Ermelino Matarazzo, uma das muitas quebradas da zona leste da cidade

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“Eu só quero é ser feliz. Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é”. Alberto Rodrigues Camargo poderia perfeitamente cantar o “Rap da Felicidade”, uma espécie de hino periférico, para se referir à sua “quebrada”, em Ermelino Matarazzo, zona leste da capital. Nascido e criado na região, ele faz questão de dizer que sequer mudou…

“Eu só quero é ser feliz. Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é”. Alberto Rodrigues Camargo poderia perfeitamente cantar o “Rap da Felicidade”, uma espécie de hino periférico, para se referir à sua “quebrada”, em Ermelino Matarazzo, zona leste da capital. Nascido e criado na região, ele faz questão de dizer que sequer mudou de endereço. Nos últimos anos, incorporou na prática o “andar tranquilamente” cantado na canção.

“Moro há 32 anos na mesma casa, em Ermelino ”, afirma Camargo, que é personal trainer e criador do “Caminhada das Quebradas”, projeto que convida e reúne pessoas para caminhar e correr tanto em Ermelino quanto em outras regiões periféricas da capital. A intenção, explica, é incentivar a prática esportiva e sociabilizar os moradores de diferentes bairros. “A ideia é tornar o exercício físico uma qualidade de vida. Fazer com que ele permita às pessoas também conhecerem melhor as ruas de onde vivem e de outras quebradas”, diz Camargo.

Um entre os 207 mil moradores locais, o personal trainer acredita que os problemas da Prefeitura Regional de Ermelino Matarazzo – composta pelo distrito homônimo e pelo da Ponte Rasa – não se diferem de outras zonas periféricas. “Tive uma infância como todo garoto de periferia que viveu nos anos 90. Alguns problemas persistem até hoje, como saúde, educação, saneamento básico e transporte público”, lista. “Não vou ser hipócrita e dizer que não melhorou nada, mas ainda falta muito, principalmente mais olhar do poder público”.

Os moradores ainda convivem em áreas bastante precárias, como o Jardim Keralux, nome herdado de uma antiga fábrica de azulejo e que hoje é um dos lugares mais vulneráveis da região, com uma série de problemas, como ruas sem asfalto.

Além disso, de acordo com dados do Observatório Cidadão, de 2015, Ermelino Matarazzo possui um dos menores índices de equipamentos culturais. Dos oito subindicadores de cultura, seis estão zerados, como teatro, museu e cinema.

Apesar do retrato apontado pelos índices, Camargo salienta que o cenário cultural de Ermelino é considerado a principal marca local. O personal também é atuante no Movimento Cultural Ermelino Matarazzo, composto por uma rede de coletivos.

O Movimento é responsável pela gestão da Casa de Cultura Ermelino Matarazzo – não contabilizada no Observatório Cidadão –, por meio de contrato de copatrocínio firmado com a Secretaria Municipal de Cultura, em 2016. De acordo com a rede, “a unidade é uma grande conquista e vitória para a comunidade de Ermelino” por oferecer atividades que vão de oficinas artísticas a apresentações de música e dança, além de exibições de filmes, palestras formativas e cursos. “O local atrai centenas de pessoas toda semana. As atividades são oferecidas de forma gratuita, muitas em parceria com equipamentos públicos e/ou privados do território”, afirmam integrantes do Movimento.

Trabalho

Dados mais recentes da Fundação Seade, de janeiro deste ano, mostraram que Ermelino Matarazzo tem um dos maiores índices de desemprego em São Paulo. Ao lado de Itaquera, São Mateus, Itaim Paulista, Cidade Tiradentes, entre outras áreas da zona leste 1, a pesquisa revelou que 1,04 milhão estava sem trabalho.

Uma realidade oposta ao próprio surgimento de Ermelino Matarazzo, a partir da criação de indústrias e da estação ferroviária Comendador Ermelino Matarazzo – que deu nome à região –, iniciando uma fase econômica em ascensão na década de 1960.

Em entrevista ao 32xSP, o prefeito regional, Arthur Xavier, afirmou que, para contornar esse déficit, está sendo implementado na região um núcleo formado por empresários, microempresários e empreendedores. Enquanto isso, moradores buscam alternativas para ampliar a renda.

“Os tempos mudaram”, afirma Luiz Gonzaga, 54, mais conhecido como Jorginho de Ermelino. “Indústria não se fala, não tem nem espaço, apesar da existência de alguns comércios, pequenas indústrias e da área de serviços”, ressalta o assessor político e técnico de computadores.

Nos últimos meses, ele decidiu apostar também em outra ocupação: a personalização de camisetas e bonés. “Viva com a inveja, porque eu sou favela e não tem pra ninguém” e “Ermelino Matarazzo é lindo” são algumas das frases customizadas nas peças divulgadas pelo Facebook. “Recebo encomendas de amigos que estão no interior, que estão no Rio, em Minas Gerais. Recebo até de gente que está no Japão”, conta. “Foi minha ideia enaltecer o bairro, pois é uma maneira de carregar a paixão pela região”.

 

Foto: Gestão Urbana/ Prefeitura de São Paulo