Moradores buscam soluções para a segurança em S. Mateus e Sapopemba

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As estatísticas falam por si quando o assunto é segurança pública nas prefeituras regionais de São Mateus e Sapopemba. Segundo dados disponíveis no portal de Segurança Pública do Estado de São Paulo, as ocorrências de roubos e vítimas de homicídios dolosos cresceram no 49º Distrito Policial de São Mateus nos primeiros quatro meses de 2017,…

As estatísticas falam por si quando o assunto é segurança pública nas prefeituras regionais de São Mateus e Sapopemba. Segundo dados disponíveis no portal de Segurança Pública do Estado de São Paulo, as ocorrências de roubos e vítimas de homicídios dolosos cresceram no 49º Distrito Policial de São Mateus nos primeiros quatro meses de 2017, quando comparadas ao mesmo período do ano anterior. Até abril deste ano, os números de vítimas de homicídios dolosos quase dobraram em relação aos seis casos registrados no mesmo período do ano passado.

Além dos números, há um debate qualitativo entre os moradores das duas regiões sobre a questão. A pesquisa “Que Segurança Pública Queremos?”, desenvolvida pela Ação Educativa, incentivou 180 moradores de São Mateus e Sapopemba a pensarem nos problemas e soluções para a segurança pública dos locais por meio de oito grupos de diálogos com materiais de apoio. Como resultado, alguns dos problemas citados foram roubos, furtos e assaltos, atuação da polícia, violência contra a mulher, problemas de infraestrutura, drogas e tráfico.   

Mayara Feitosa, 21, é uma das moradoras que enfrenta a violência urbana na região. A designer gráfico reside no Parque São Rafael — que pertence ao distrito homônimo, dentro da Prefeitura Regional de São Mateus — e, além de já ter sido roubada no bairro onde mora, também já presenciou assaltos. “Acho que a iluminação e a infraestrutura afetam muito. Quando tem pouca iluminação na rua, eles se escondem em postes ou vêm de moto com os faróis apagados”, conta a jovem.

Em nota, a assessoria de imprensa da Prefeitura Regional de São Mateus afirma que as demandas referentes à iluminação pública são encaminhadas para Ilume (Departamento de Ilumação Pública) e que as solicitações são apresentadas nas reuniões dos Consegs (Conselho Comunitário de Segurança), que são grupos de pessoas do mesmo bairro ou município que se reúnem para discutir e analisar, planejar e acompanhar a solução de seus problemas comunitários de segurança entre as lideranças locais.

A problemática da segurança pública não se encerra em roubos, assaltos e infraestrutura. A atuação da polícia também é um dos pontos de atenção mencionados pelos moradores de ambas as regiões. Casos de abuso de autoridade e ação violenta, bem como abordagens truculentas e preconceituosas são algumas das atitudes citadas.

Em 2015, a dona de casa Solange Oliveira, 45, perdeu o filho Victor Brabo, 20, que foi morto por um policial civil durante uma tentativa de saída de banco. Imagens de uma câmera de segurança mostram que o jovem tentou se render ao ser abordado. Com a dor da perda, desde 2016, a moradora de Sapopemba iniciou uma luta com as mães de outros jovens que enfrentam a mesma situação e criaram o movimento “Mães em Luto da Zona Leste”.

 

Após perder o filho, Solange Oliveira iniciou o movimento “Mães em Luto da Zona Leste” – foto Rosana Pinheiro

 

“Converso com mães de diferentes regiões de São Paulo, já fizemos reuniões em Diadema, Paraisópolis e Guaianases. Procuro orientá-las sobre como fazer, quais são os órgãos, também acompanho nas idas à ouvidoria”, explica Solange, que pretende aumentar a rede do movimento, incluindo até mães de outros países. Segundo ela, a região de Sapopemba sofre com a escassez de equipamentos de lazer e cultura, além da falta de estrutura nas escolas.

 

BOAS PRÁTICAS

Em meio à violência e falta de espaços públicos de cultura e lazer destinados aos jovens — que são umas das principais vítimas das lacunas da segurança pública nessas comunidades –, há iniciativas como o CEDECA (Centro de Defesa dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes) Sapopemba, que, desde 1991, atua em atividades como denúncia de situações de violações de direitos desse público, mobilização da comunidade para o incentivo de políticas públicas, oficinas de cultura, entre outras.

“A cultura e a arte são os meios de maior diálogo entre os jovens. Precisamos ocupar os espaços públicos e continuar ampliando os mesmos. Isso tem sido acirrado já que vivemos  em tempos em que há o pensamento da privatização”, afirma a presidente do CEDECA Sapopemba, Valdênia Paulino, 50, ao falar sobre as possíveis soluções para o problema de segurança pública na região.

A pedagoga Jeniffer Avancini, 27, foi criada no Parque Santa Madalena, em Sapopemba. A jovem cresceu em meio ao cenário de violência na região e frequenta o centro de defesa desde criança.

“Foi aqui que tive mais conhecimento e minha mente abriu. Chegou ao ponto de eu querer cursar uma faculdade. Esses projetos resgatam o adolescente, por isso precisamos investir nos que já existem e criar outros espaços para os jovens”, comenta a moradora, que atualmente trabalha como recepcionista no CEDECA Sapopemba.

 

CEDECA Sapopemba é um dos poucos espaços destinados à juventude em Sapopemba – foto: Laiza Lopes

 

Até o fechamento da matéria, o 32XSP não recebeu o posicionamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo sobre a atuação da polícia. Questionadas sobre a previsão de expansão dos espaços de cultura e lazer em ambas as regiões, as prefeituras regionais de São Mateus e Sapopemba também não se posicionaram.

Assim como as deficiências são múltiplas, uma parcela dos moradores enxerga que as soluções para o problema da segurança pública também abrangem diversos aspectos. Nessa perspectiva, a população propõe que a diminuição das desigualdades, investimentos em infraestrutura nos bairros periféricos, ações que combatam o racismo, machismo e homofobia, reforma da polícia e do sistema da justiça, sejam alguns dos caminhos para uma mudança efetiva.

 

Foto principal: Laiza Lopes