Esquecido, cruzamento perigoso na Vila Maria faz vítimas há 50 anos

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Trecho é chamado de “Cinco Esquinas” e fica na confluência com as ruas Ataliba Vieira, Gil Castelo Branco e Estevão Melio

Longe da atenção do poder público e das estatísticas oficiais, as ruas das periferias também convivem com graves acidentes de trânsito.

Na Vila Maria Alta, na zona norte, um trecho da avenida Conceição, chamado de “Cinco Esquinas”, na confluência com as ruas Ataliba Vieira, Gil Castelo Branco e Estevão Melio, é conhecido pelo alto risco de acidentes, que vitimam principalmente os pedestres.

Moradores antigos, como o jornaleiro Anésio de Souza, 76, garantem que as ocorrências fatais vêm desde a época de asfaltamento das vias, há 50 anos. Ele diz que a primeira morte que viu foi em 1967. “Era a virada do ano, um mocinho foi atropelado e jogado contra um poste de madeira. Morreu na hora!”, revela.

A dona de casa Angelina Fernandes, 90, conta que seu marido foi atropelado ali há cinco anos.

“Ele foi atingido após uma batida entre um skatista e um carro. Foi para o hospital e agora está com Deus”, conforma-se. 

 

Angelina Fernandes, 90, perdeu o marido há cinco anos (foto Sidney Pereira/Agência Mural)

 

O jornaleiro Souza acredita que a sinalização é falha. “Essas faixas [de pedestres] são perigosas. O carro ainda para, mas o motoqueiro sempre tem muita pressa”, diz. A mesma opinião tem a viúva Angelina, que reivindica a instalação de um semáforo: “a gente sai na rua com medo, ninguém sabe de onde vem o carro, tem que olhar pra todo lado”, afirma.

Com mais de quatro quilômetros de extensão, a avenida Conceição corta vários bairros da zona norte e é rota de caminhões em direção à via Dutra. Na altura do número 4.100 da via, ao redor das “Cinco Esquinas”, ficam pequenos comércios e casas simples.  A travessia para chegar ao ponto de ônibus, em uma das esquinas, protagoniza momentos de insegurança para os pedestres, muitos com mobilidade reduzida.

O autônomo Nelson Lisboa, 45, residente na rua Ataliba Vieira, avalia a situação como crítica. Nos “últimos 20 anos” ele tem feito reclamações à antiga subprefeitura da Vila Maria / Vila Guilherme e à própria CET, quando um posto móvel da companhia esteve no bairro.

Lisboa comenta que solicitou os antigos protocolos de requerimentos à atual administração da prefeitura regional, para ter um histórico da questão e fazer nova reivindicação, mas ainda não foi atendido. Ele pede a urgente redefinição do traçado geométrico do local e justifica: “Freadas, batidas e atropelamentos são constantes pelo excesso de velocidade. Os carros derrapam e param no meu portão. Caminhões já chegaram a tombar a carga na frente da minha casa, impedindo de sairmos”, relata.  

O entroncamento de vias tem faixas de pedestres e placas de restrição ao trânsito de caminhões, mas nenhuma de indicação de velocidade máxima ou de alerta ao motorista.

No período em que esteve no local, a reportagem do 32xSP presenciou infrações, como o tráfego de veículos pesados em horário proibido, carros na contramão pela rua Gil Castelo Branco e o desrespeito constante à passagem preferencial das pessoas a pé.

Questionada sobre as reclamações da comunidade, a CET admitiu que a confluência de ruas já “foi objeto de estudos anteriores”.

Um projeto de nova sinalização horizontal e vertical foi elaborado, “visando minimizar os conflitos existentes e proporcionar melhores condições de segurança e fluidez”, porém a companhia alega que não há data definida para sua implantação, que “dependerá do cronograma de serviços da empresa”.

MORTE DE PEDESTRES

O relatório anual da CET, de 2016, mostra que 25% dos acidentes com vítimas foram do tipo atropelamento, com 3.777 casos. Das ocorrências fatais no trânsito, os pedestres representaram 40% do total. A cada dia do ano passado, a companhia registrou 11 atropelamentos. Dos 343 pedestres mortos, quase metade tinha idade acima de 50 anos.

Já a Pesquisa de Mobilidade Urbana 2017, realizada pela Rede Nossa São Paulo e a ONG Cidade dos Sonhos, em parceria com o Ibope inteligência, indica que o paulistano desaprova a estrutura de locomoção a pé da cidade. Os quesitos relativos às faixas de pedestres, como quantidade, sinalização e localização, bem como o tempo de travessia nos semáforos, receberam nota entre 4,0 e 4,4, na escala que vai até 10. No item “respeito às faixas de pedestres pelos motoristas”, os paulistanos da região norte foram os mais críticos da cidade, com 49% deles opinando negativamente.