Qual o tempo médio de vida no Jardim Ângela e nos Jardins?

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Diferença entre distrito pobre e rico chega a quase 24 anos

Ruas residenciais de casas próximas a avenida M’Boi Mirim (Caroline Pasternack)

Thomas Antigo, cozinheiro de 23 anos, mora no Jardim Ângela, zona sul de SP, desde que nasceu, e viu o bairro se modernizar com a chegada de comércios, hospital municipal e terminal de ônibus, assim como também presenciou episódios tristes.

“Eu acredito que o Jardim Ângela se sustenta pois temos de tudo aqui, um fluxo intenso de pessoas indo e vindo e movimentando a economia local”, afirma.

Apesar do crescimento, que atraiu clientes e comerciantes, melhorando a acessibilidade, o distrito é onde se morre mais cedo entre todos os 96 da capital paulista, segundo o Mapa da Desigualdade 2017.

A idade média ao morrer no Jardim Ângela é de 55,7 anos, quase 24 anos a menos do que em outro Jardim, o Paulista, na zona oeste, que possui a melhor média, 79,4 anos.

“Infelizmente muitos jovens se iludem e entram para o crime. Tenho ex-colegas de escolas que morreram com 21, 25 anos por conta disso, ainda é comum”, pontua Antigo, salientando a falta de investimentos públicos básicos como ensino de qualidade, lazer e oportunidades de emprego.

O cozinheiro foi o único de sua turma a ingressar no ensino superior e diz que oferta de lazer e cultura é baixa ou inexistente.

“A única praça que temos, a Bambuzal, é dividida entre crianças brincando e pessoas usando drogas, aí ou se brinca na rua ou temos que sair do bairro para buscar outras opções. Eu gosto de morar aqui, mas esses problemas me frustram”, complementa.

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Localizado no extremo sul de São Paulo, o Jardim Ângela possui 295.434 habitantes e iniciou sua história sendo uma região com opções imobiliárias atrativas graças aos primeiros imigrantes libaneses que construíram casas de aluguel no bairro.

Quem também mora há um bom tempo no Jardim Ângela é a auxiliar de enfermagem Terezinha Gomes de Oliveira, 58. Ela se mudou para o bairro há 26 anos atraída pela oferta imobiliária.

“Meu marido perdeu o emprego, na época morávamos de aluguel na Consolação e tínhamos comprado um terreno por aqui, então escolhemos vir para cá para deixar de pagar aluguel e assim fomos construindo nossa vida”, relembra.

Moradora do Jardim Angela
Terezinha Gomes de Oliveira vive no Jardim Ãngela há 26 anos (Caroline Pasternack)

A auxiliar de enfermagem conta que conseguiu criar suas filhas e conquistar uma vida estável na região e alega nunca ter tido problema para andar pelas ruas, consideradas tranquilas por ela.

Terezinha também acredita que a baixa idade média ao morrer está diretamente ligada à falta de investimentos básicos como educação, alimentação e saúde.

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“Antigamente ficávamos até 10 horas em um hospital para ser atendida ou uma hora no ponto de ônibus só para ir até Santo Amaro. Hoje em dia, as coisas melhoraram bastante, mas ainda sofremos com isso”, diz.

Apesar de construir sua vida no Jardim Ângela, a auxiliar de enfermagem conta que se tivesse condições financeiras, voltaria a morar no centro de São Paulo.

As reclamações dos moradores são refletidas nos números da mesma pesquisa. O Jardim Ângela possui 0,76 leitos hospitalares para cada mil habitantes, enquanto que o Jardim Paulista tem um número de 34,7 para cada mil habitantes. Na parte de cultura e esporte, o bairro da periferia não possui centros culturais, teatros ou oferta de livros. Já os equipamentos esportivos estão na casa de 0,25 para cada 10 mil habitantes.

NOS JARDINS

Bárbara Herthel, 31, é psicóloga e natural de Londrina (PR). A paranaense escolheu o Jardim Paulista há dois anos, depois que uma amiga se mudou para o bairro nobre, com quem divide apartamento.

Além de morar com a colega, a acessibilidade ao trabalho também pesou na hora da mudança. “Morar aqui possibilita muita facilidade para realizar as coisas do dia a dia, muitas a pé, o que eu acho positivo”, assegura.

A psicóloga Barbara Hertel divide apartamento com uma amiga nos Jardins (Divulgação)

“Tenho mercado próximo, cinema, e mesmo que precise pegar um uber ou táxi, sai bem mais em conta”, completa.

Para ela, no entanto, o ponto negativo é o preço alto dos imóveis em comparação a outras localidades. “Tudo é um pouco mais caro e por isso eu provavelmente deixarei o bairro no próximo ano. Moro aqui, mas não consigo usufruir de tudo”, explica a psicóloga.  

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Sobre a pesquisa, Bárbara acredita que a longevidade esteja relacionada ao acesso a serviços e infraestrutura que a região possui, tornando a vida mais fácil.

“Isso também torna a região mais cara e, consequentemente, a renda da população é mais alta e ela consegue ter acesso a outros serviços. Sendo uma região com mais infraestrutura e com mais renda, isso irá impactar na longevidade”, opina.

Para Américo Sampaio, gestor da Rede Nossa São Paulo que esteve à frente do estudo, a diferença entre a idade média é o reflexo da soma de diversos fatores, que demonstram como quem vive no pior bairro não possui o direito a viver a cidade, ou a assistência necessária para isso, e acaba morrendo mais jovem.

“Além do genocídio da juventude negra e periférica pela polícia, existem outros dados que explicam essa diferença. Quem mora no Jardim Ângela quase não tem área verde, gasta horas no transporte público para chegar ao centro e não possui uma saúde de qualidade; o resultado é essa discrepância de quase 24 anos entre os dois distritos, é um dado delicado”, conclui.  

CIDADE TIRADENTES

A nova versão do Mapa da Desigualdade apresenta uma diferença um pouco maior em relação ao ano anterior. Alto de Pinheiros, outro vizinho rico dos Jardins, liderava o ranking com 79,6 anos, enquanto a Cidade Tiradentes estava no rodapé da lista, com apenas 53,8. O cálculo da média é obtido a partir da divisão da soma das idades ao morrer pela quantidade total de óbitos em todas as idades.

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Atualmente, a expectativa de vida do brasileiro, segundo dados do IBGE, é de 75,2 anos, ou seja, quem reside no pior distrito está vivendo 20 anos a menos que o restante do país.