Prefeitura autoriza Parque Minhocão, mas moradores sonham com demolição do elevado

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Prefeito João Doria sancionou lei que cria parque, mas vetou possibilidade de demolição da via, prevista no Plano Diretor

Quando criança, Roberto Laranjeiras viu o Minhocão ser construído (Rafael Carneiro/32xSP)

Entre pianos, relógios, móveis e outros tantos objetos, Roberto Laranjeiras, 43, administra com esmero seu antiquário, na avenida São João, no centro de São Paulo. Adora o que faz e não se importa em ter a companhia diária de suas antiguidades. Quem o incomoda mesmo é o vizinho Elevado João Goulart, popularmente conhecido como Minhocão. Laranjeiras, que viu a construção ganhar forma, não vê a hora de ela ser demolida.

“Minha família chegou aqui um ano antes da construção dele e acompanhei de perto a destruição da qualidade de vida nessa região. Eu, que só trabalho aqui, também sofro com isso. Percebo que minha audição piorou muito, por exemplo”, afirma o comerciante que possui uma característica comum de quem trabalha nos arredores do Minhocão: falar alto.

Atualmente, Laranjeiras vive na Pompeia, zona oeste, mas sua mãe continua morando no apartamento acima do antiquário, a poucos metros da via elevada. A matriarca instalou até vidro duplo para atenuar a poluição sonora, mas de nada adiantou.

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No dia 8 de fevereiro, o prefeito João Doria (PSDB) sancionou a lei que cria oficialmente o Parque Minhocão, porém vetou a possibilidade de demolição do elevado, prevista no Plano Diretor da cidade.

O texto aprovado por Doria diz que, em até dois anos, a prefeitura deve apresentar um Projeto de Intervenção Urbana (PIU), elaborado com participação popular.

Com a manutenção da via elevada, há apenas duas possibilidades para a área: a transformação parcial ou integral dela em parque. Propostas para o entorno do parque e instrumentos para controle da valorização imobiliária também deverão constar no PIU.

Elevado João Goulart, mais conhecido como Minhocão (Rafael Carneiro/ 32xSP)

“O parque não é bem-vindo para mim porque ele não vai resolver os maiores problemas, que estão embaixo do Minhocão, como a alta concentração de poluentes e o barulho intenso. Se tirasse o viaduto, os poluentes se dispersariam mais rápidos. Eu sou favorável sim a um parque na parte inferior, com muitas árvores”, defende Laranjeiras.

Dados do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP, obtidos pelo site Conexão Planeta, mostram que os ruídos medidos na região em todos os horários estão acima do limite recomendável pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), que é de 55 decibéis.

Além disso, o levantamento aponta que os vizinhos do Elevado João Goulart respiram 79% de poluição a mais que a média da cidade. Os maiores responsáveis por isso seriam os ônibus que circulam abaixo da via, que acaba funcionando como um “tampão”.

Para Evangelina Vormittag, 54, diretora-presidente do Instituto Saúde e Sustentabilidade, a criação de um parque naquela região da cidade é um ganho para a população, mesmo que ele seja somente no elevado. “Isso já diminuiria um pouco a emissão de poluentes”, diz.

Porém, a especialista ressalta que se ele for verde, e não somente uma área de lazer asfaltada, trará ainda mais benefícios aos moradores, pois equilibraria o microclima e haveria uma grande absorção dos poluentes pela vegetação.

“Em relação à saúde, o verde gera benefícios cardiovasculares e respiratórios, sem falar que melhora o sono e estimula outros hábitos importantes, como a socialização”, segue Evangelina.

FUTURO

Moradora da região, Mariana Martins organiza bate-papos sobre o futiro do Minhocão (Rafael Carneiro/ 32xSP)

Há sete anos, Mariana Martins, 34, trocou Guilhermina Esperança, na zona leste da capital, por Campos Elíseos, um dos bairros cortados pelo Elevado João Goulart.

Em pouco tempo, ela e o filho Vinicius se viram obrigados a conviver com a rinite alérgica. “A poluição aqui é constante e o Minhocão contribui muito para isso”, afirma.

Usuária da via aos finais de semana, quando o local é fechado para os carros, e preocupada com o futuro daquela área, a jovem resolveu agir e chamou os moradores para discutir o que será feito daquela que é considerada uma das obras mais feias e agressivas de São Paulo.

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Um dos questionamentos que Mariana apresentou no primeiro bate-papo foi sobre o projeto de lei aprovado na Câmara Municipal e sancionado alguns dias depois por João Doria.

“Esse decreto é um problema, mas considero uma pequena vitória a inclusão do PIU, o que aconteceu após várias reuniões com os vereadores autores do PL. Já retirar o desmonte do texto foi ilegal. Ele está no Plano Diretor”, ressalta.

“Agora é insistir para que o PIU seja realmente apresentado. Há muitas questões que precisam ser respondidas. Qual é o projeto para a parte de baixo do Minhocão? Qual será o orçamento destinado para a Secretaria do Verde e Meio Ambiente para a construção do parque? Queremos estudos de saúde, de ruído, de quanto será gasto. O aluguel do comerciante vai aumentar? Ele vai conseguir se manter?”, questiona a moradora, que deseja ver um projeto completo, contemplando não somente as questões ambientais, mas também sociais.

O próximo encontro está agendado para o dia 4 de março. “Queremos que esse debate não acabe. Quem sabe um dia aqui não vira um lugar ainda mais agradável, com uma extensa área verde integrada ao cotidiano dos moradores? Já imaginou se as pessoas que moram no bairro pudessem colocar suas cadeiras na posta de casa, como acontece no interior?”, finaliza a moradora.

SERVIÇO:

Aberto para pedestres de segunda-feira a sábado, das 21h30 às 5h, e aos domingos e feriados durante todo o dia.

 

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