‘Não precisamos de prédios que maltratem nossa memória’

Publicado em Categorias _01_home-posicao-01, Centro, Especulação Imobiliária, Habitação, Tags ,

Projeto prevê a construção de empreendimento imobiliário pelo Grupo Silvio Santos em terreno de sua propriedade na região

Comunidade do Teatro Oficina, que completará 60 anos em atividade, pede parque no Bixiga e preservação da cultura do bairro (Tamires Tavares/32xSP)

Conhecido como o “bairro italiano”, o tradicional e boêmio Bixiga é considerado um importante ponto de cultura e lazer no centro da capital. Localizado no distrito da Bela Vista, da Prefeitura Regional da Sé, ele abriga patrimônios históricos e culturais como o Teatro Oficina, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), a Casa de Dona Yayá e o Castelinho da Brigadeiro.

A preservação deste bairro, assim como a criação de um espaço público arbóreo, tem sido debatida por seus moradores com mais intensidade desde que, em outubro de 2017, foi autorizada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) a construção de empreendimento imobiliário pelo Grupo Silvio Santos em terreno de sua propriedade na região.

“O Bixiga não precisa de cimento. Não precisa ‘subir’, com prédios que maltratem a memória, o horizonte, a vida. O Bixiga precisa ser preservado. Empreendimento lucrativo para um só não preserva nada: faz muro alto e tira a rua do cidadão”, opina Marcelo Marcus Fonseca, 47, diretor teatral que reside no Bixiga há sete anos.

O local, alvo da disputa, está posicionado entre as ruas Jaceguai, Abolição, Japurá e Santo Amaro, tem 11 mil m² e é cercado por imóveis tombados. À época da aquisição do terreno, na década de 1980, o Grupo Silvio Santos planejava construir um shopping center. O projeto atual, que buscava aval desde 2008, prevê três torres residenciais de 100 m de altura, com cinco andares de estacionamento — dois no subsolo.

A preocupação de moradores como a cozinheira Mara Azenha, 67, moradora do Bixiga há 16 anos em uma casa construída na década de 1940, é em relação aos riscos que o empreendimento pode causar às edificações tombadas ao redor do terreno e que correspondem a 1/3 dos tombamentos na capital.

Em recente carta aberta, os conselheiros do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) comunicaram à presidente da instituição a ameaça que o projeto representa principalmente ao Teatro Oficina, vizinho do terreno.

“Nem o Bixiga, nem a cidade precisam de mais um shopping ou uma torre de moradia onde existe uma circulação de vida. Principalmente o Bixiga. O Teatro Oficina é mais importante que todo o conglomerado do apresentador de tv, pois é responsável direto pela defesa de nossa identidade, liberdade de expressão e um parâmetro de criação para várias gerações, não somente teatrais”, protesta Marcelo.

Comunidade do Teatro Oficina, que completará 60 anos em atividade, pede parque no Bixiga e preservação da cultura do bairro (Tamires Tavares/32xSP)

Além da questão de patrimônio, um imóvel naquele terreno pode causar impacto ambiental,  de acordo com a geóloga e moradora do bairro Tânia de Oliveira Braga, 63.

“O corte que querem fazer para as garagens vai rebaixar o lençol freático e desestabilizar o solo que hoje está razoavelmente em equilíbrio. Há um córrego canalizado que passa pelo terreno. Todo o escoamento daquela região vai parar naquele curso d’água. Caso seja concentrada mais água nele, corre-se o risco de inundar os quintais, como acontecia anteriormente nas casas da rua Japurá, antes da construção do piscinão”, comenta.

Para a geóloga, o ideal seria deixar parte do córrego a céu aberto para melhorias na manutenção. “As pessoas pensam que após canalizar está tudo resolvido, mas a drenagem urbana manda água com lixo para lá. Se há assoreamento, a água passa a ter refluxo, pode haver problemas de alagamento”, explica.

LEIA MAIS: Prefeito regional da Sé quer revitalizar monumentos para atrair turistas

Tânia, como outros moradores e a comunidade artística do Bixiga, defende que no terreno seja criado o Parque Municipal do Bixiga. Diversas manifestações foram organizadas e  reuniões de representantes do Teatro Oficina com o Grupo SS foram feitas para estimular um acordo de troca de terrenos. Em 2017, foi criado um projeto de lei para a aprovação do parque (PL 805/2017), de autoria do vereador Gilberto Natalini (PV).

A reivindicação por um espaço verde na região, que é a mais populosa da cidade, é justificada pelo número reduzido de árvores — apenas 518 — de acordo com Mapa da Desigualdade 2017, da Rede Nossa São Paulo, que indica o distrito Sé como o último no ranking de arborização viária. O documento mostra ainda que o meio ambiente é um dos cinco principais aspectos que influenciam a qualidade de vida dos paulistanos.

“O Parque do Bixiga se apresenta como um novo modo de existir possível e desejado num grande centro urbano como São Paulo. Faz frente e contracena com a especulação imobiliária, com a violência das políticas públicas de higienização social e de verticalização urbana. Ele criaria um necessário bolsão de respiro na capital”, diz Cafira Zoé, 30, artista multimídia do Teatro Oficina.

Luciana Candido, 39, jornalista e moradora do Bixiga há 4 anos, afirma que a criação do parque depende da mobilização da sociedade. “Outros governos poderiam ter desapropriado o terreno, mas não o fizeram porque muitos interesses financeiros estão em jogo”, argumenta.

“A vitória surgirá com a comunidade mobilizada, com ações de rua, intervenções culturais, ocupação do espaço público; não só pelos moradores, mas com o apoio de todos quiserem se engajar. Essa não é uma luta só do Bixiga, pois ela simboliza uma resistência contra o descaso com que a cultura é tratada e contra a ocupação de um espaço que é da comunidade”, finaliza a jornalista.

VEJA TAMBÉM: Parque no Butantã pode dar lugar a cinco prédios de 25 andares

OUTRO LADO

Em nota enviada ao 32xSP, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento informa que o projeto de edificações está em análise no setor de licenciamento da pasta, ainda sem parecer conclusivo.

“A presente área está inserida em uma Zona de Ocupação Especial – ZOE, cuja ocupação poderá ser definida por um Projeto de Intervenção Urbanística – PIU específico, medida que pode ser apresentada à análise da administração municipal pela associação de moradores e/ou outro grupo de interessados. No referido PIU, as diretrizes propostas, a mensuração de eventuais impactos e as contrapartidas ofertadas deverão estar devidamente detalhadas”, esclarece a secretaria.

Procurado, o Grupo Silvio Santos não entrou em contato com a reportagem até a publicação desta matéria.

***

Prefeitura autoriza Parque Minhocão, mas moradores sonham com demolição do elevado