Por que 24% da população de SP não frequenta evento cultural público?

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Pesquisa “Viver em São Paulo” indica que insegurança e aglomeração são algumas das explicações. Confira a opinião dos não frequentadores

Insegurança e aglomeração são principais impeditivos para que moradores saiam de casa para frequentar atrações (Milton Jung/CCBY)

A falta de segurança é o principal motivo que faz o paulistano não frequentar os eventos públicos na cidade, segundo mostra a pesquisa “Viver em São Paulo: hábitos culturais”, lançada nesta terça-feira (10) pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência.

Apesar do crescimento no número de atrações e na diversidade dos eventos, 24% dos entrevistados declararam não frequentá-los. Já 46% deixam de ir por acreditarem estar correndo algum tipo de risco.

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O vendedor Leandro Herrera, 29, morador do Ipiranga, na zona sul da capital, acha que os eventos promovidos na cidade são superlotados e perigosos, o que fez com que ele excluísse esse tipo de programa de sua agenda cultural.

Herrera já frequentou a Virada Cultural e o Carnaval de rua de São Paulo, mas conta não ter tido boas experiências. “Já faz uns cinco anos que frequentei esses eventos e já eram bem cheios. Na virada, por exemplo, o pessoal vai para beber, nem sabe o que está acontecendo, e quando junta gente com bebida em um espaço aberto, a chance de dar confusão é bem grande. Eu mesmo já presenciei brigas assim. Se a segurança fosse melhor, talvez eu voltaria”.

O Carnaval de rua de São Paulo deste ano superou inclusive o do Rio de Janeiro: foram 9,1 milhões de foliões e 491 blocos contra 6 milhões de pessoas e 473 desfiles da capital carioca. São Paulo ficou atrás apenas de Salvador, a terra da folia.

A coordenadora de marketing Caroline Morgante, 32, mora em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, mas trabalha e passa suas horas vagas na capital e conta que nunca frequentou uma atração pública. Ela opta por locais fechados e mais controlados, principalmente por acreditar que esses tipos de eventos estão sempre lotados, assim como 39% dos entrevistados.

“Eu acho muita aglomeração, além de não ter uma estrutura que comporte a quantidade de pessoas que frequentam esses eventos, como falta de sanitários, e tem o fato de não ser muito seguro. Claro que é difícil mensurar, pois hoje em dia não estamos mais seguros em lugar nenhum, mas onde tem mais gente, óbvio que a segurança deve ser reforçada.”

“O Carnaval de rua é um exemplo disso. Por que tem tanto arrastão? Como que isso continua acontecendo? Acho que alguma falha ainda existe. Sei que não tem evento perfeito, mas pelo que acompanho nas coberturas das mídias e pelas pessoas que frequentam e me falam, os acontecimentos negativos ainda estão bem altos”, afirma.

“Você não vê arrastão em evento privado, pelo menos eu nunca fiquei sabendo. Eu acho legal para quem curte, acho bom a prefeitura oferecer isso, mas acho que eles precisam investir em uma condição melhor para quem vai, pois sei que muita gente deixa de frequentar, de ter um lazer bacana por conta dessas limitações”, completa Caroline.

Caroline Morgante, coordenadora de marketing (Arquivo pessoal)

Falando em Carnaval, foi justamente essa festa, que vem ganhando os paulistanos, que faz Maria Carolina Mendes, 22, moradora do Panamby, na zona sul da capital, repensar antes de escolher por um evento público ou privado.

Segundo a relações públicas, sua experiência na Vila Madalena, em 2016, não foi muito positiva. “Eu achei o Carnaval de São Paulo muito mais abusivo que o do Rio de Janeiro, por exemplo. Acho que lá dá pra escolher entre ir para um bloco de paquera ou um bloco mais tranquilo. Aqui não, as pessoas acham que por você estar no bloco você já está dando o direito de ela vir te assediar. Além disso a rua é mais suja e os bares já te expulsam antes de você falar que realmente irá consumir”.

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A analista de projetos, Jéssica Lopes, 27, mora na Vila Isa, na zona sul, e também nunca frequentou eventos públicos. Segundo ela, a aglomeração de pessoas e a insegurança são motivos que a fazem nem cogitar sua ida nestes eventos.

“A sensação de insegurança é maior. A qualquer momento alguém pode pegar algo que é seu, e você só perceber quando está voltando pra casa e precisa daquilo. Acho bacana as pessoas que se animam para esse tipo de evento, mas eu sou do time que prefere assistir confortavelmente em casa, pela TV, se tiver essa oportunidade”.

Jéssica também nunca se sentiu muito atraída pela programação disponível, por isso prefere investir em algo em que ela tenha certeza que não haverá problemas. “Acho que se houvesse uma organização maior, principalmente na questão de espaço, eu pensaria mais no assunto, e se fosse algo que me interessasse muito, a probabilidade de ir seria bem maior, sim”. 

Os quatro entrevistados foram unânimes sobre as complicações para acessarem os locais onde os eventos acontecem. A curadoria dos eventos e uma divulgação que realmente os atinja também foram citadas.

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