Na zona leste, distância de casa desestimula visita a espaços culturais

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Para 24% dos moradores, a proximidade é um dos principais fatores para frequentar atividades culturais, o maior índice de SP

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24% dos moradores da zona leste não frequentam espaços culturais por causa da distância (Cinecampinho/Divulgação)

Quando o arte-educador Wellington Viana Braga, 33, sente vontade de ir ao cinema, a opção mais próxima que encontra onde mora, no Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo, fica dentro de um supermercado. Apesar de levar apenas 30 minutos para chegar até lá, nem sempre fica satisfeito.

“Infelizmente os filmes que chegam até a população são os comerciais; documentários e curtas, que inclusive são de minha preferência, nunca chegam até nós”, relata Braga, que acaba recorrendo à internet em casa mesmo para ter acesso a suas produções preferidas.

A distância entre a moradia e os espaços culturais é um dos principais motivos que dificultam os hábitos culturais da população das periferias paulistana, sobretudo da zona leste.

É o que aponta a pesquisa “Viver em São Paulo: Cultura”, realizada pela Rede Nossa São Paulo e Ibope, e divulgada na última terça-feira (11).

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Para 24% dos moradores dos bairros da zona leste, a proximidade de casa é um dos principais fatores para frequentar atividades culturais, o maior índice em toda a cidade. Ao todo, 35% da mostra da pesquisa, constituída de 800 pessoas, são da região.

“O local de moradia é fator determinante para o acesso aos recursos que a cidade pode oferecer, fundamentalmente em uma cidade onde os equipamentos públicos e privados de cultura são tão concentrados na região central e na zona oeste”, afirma o doutor em Sociologia na USP, Tiaraju D’Andrea Pablo.

“Os dados da pesquisa revelam como a questão territorial se intersecciona com outros fatores: para os pretos, menos escolarizados e para quem ganha de dois a cinco salários mínimos – os mais pobres, a frequência se estimula pela proximidade da residência”, completa Pablo, também morador da zona leste.

O cinema é o espaço cultural mais frequentado pelos paulistanos, 68% de toda a mostra. Desses, 20% vão ao cinema ao menos uma vez por mês. As bibliotecas são os espaços culturais menos visitados da cidade, apenas por 35% dos entrevistados, sendo 5% mensalmente.

“Filmes são produções acessíveis desde a primeira infância via televisão, fator que habitua o público a tal linguagem. É o contrário do que ocorrem com as bibliotecas, cuja frequência menor ocorre pela existência de poucos equipamentos deste tipo na cidade, bem como pela necessidade do treinamento do hábito da leitura. A biblioteca expressa o mundo das letras, hábito pertencente fundamentalmente a uma classe social que dispõe de tempo e meios para a leitura. Para as classes populares, a biblioteca pode representar um local inacessível, quase humilhante pela dificuldade de acesso ao código”, acredita Pablo.

CINEMA

Fã de dramas, documentários e ficção científica, Marina Cippola, 25, moradora da Vila Matilde, frequenta o cinema uma vez por mês e prefere ir às salas de cinema do centro, onde além de ter mais opções de filmes desses gêneros em cartaz, consegue descontos nos ingressos.

“Na minha região, especificamente, conto apenas com grandes salas em shoppings. Acho que pela demanda até são suficientes, pois o valor é abusivo, principalmente pra quem não paga meia entrada. E os filmes são sempre os dos grandes estúdios. Se tem oito salas num shopping, seis estarão passando algum filme de Hollywood e duas alguma comédia brasileira”, explica.

“Não acho um problema passar esse tipo de filme. Eu inclusive assisto alguns e gosto bastante, mas o problema é que a população dessa região fica presa sempre aos mesmos títulos. Acho que o mercado publicitário que pensa a distribuição dos filmes é extremamente preconceituoso e segregacionista, não buscam saber o que as pessoas querem, vão pelo estereótipo”, reitera ao relatar que leva, em média, uma hora da sua casa para ir até os cinemas no centro, e gasta R$30 por mês.

Segundo os cálculos do cientista social Pedro Oliveira, 33, morador de Guaianases, para ir ao cinema com a esposa uma vez por mês eles chegam a gastar R$150, além de levarem uma hora no caminho de transporte público.

Como alternativa, Oliveira faz parte do projeto Cine Campinho, que promove exibições gratuitas de filmes em um campo de futebol do bairro, além de estimular a produção audiovisual independente.

Cine Campinho promove exibições gratuitas de filmes em um campo de futebol em Guaianases (Divulgação)

“Temos poucas salas de cinema na zona leste e os filmes em estreia demoram chegar por aqui, principalmente, se forem filmes que abordam contextos sociais, que gosto muito. É por isso que temos um projeto de cinema no fundão da zona leste, para aproximar a tela a mais gente que não consegue pagar os altos valores e poder exibir filmes que dialogam mais com nossa realidade”, acredita.

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“Há poucos espaços culturais públicos e privados na zona leste. Estes estão concentrados no centro e na zona oeste e a acessibilidade dos moradores da zona leste a estes locais é péssima. Os fatores distância, preço e condições dos transportes, tempo de deslocamento e preço das atividades acabam se transformando em um somatório de interditos e impossibilidades. Não é a toa que a zona leste é uma das que mais possuem coletivos de cultura e produção artística formada e atuante na própria região. Esta também é uma forma de romper com a segregação socioespacial”, afirma Tiaraju, que pesquisou o tema em seu doutorado “A formação dos sujeitos periféricos: cultura e política na periferia de São Paulo”.

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