52% dos paulistanos são contra a criação de banheiros unissex

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Segundo estudo "Viver em São Paulo: Diversidade", banheiros sem separação de gênero também não são bem aceitos por 61% da zona leste

 

52% da população paulistana é contra a criação de banheiros unissex
Zona leste é a região que mais desaprova banheiros sem separação de gênero, segundo estudo “Viver em São Paulo: Diversidade” (Magno Borges/32xSP)

Comumente associado às pautas reivindicadas pelas populações LGBTI, principalmente às causas de gênero, os banheiros unissex, ou seja, aqueles em que não há demarcação por gênero, são reprovados por 52% dos paulistanos. É o que aponta a pesquisa “Viver em São Paulo: Diversidade”, realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência.

Para a psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus, que também é professora universitária e pesquisadora da temática LGBT, o uso do banheiro unissex deve ser pensado para além da população trans, pois deve ser um espaço usado por todos.

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“Banheiros unissex não são uma demanda da população trans, esses banheiros devem ser para todo mundo. Se for um lugar criado em função de pessoas trans, isso é uma discriminação terrível”, explica.

“Em geral as pessoas pensam, às vezes até de boa vontade, de banheiros unissex, mas acabam pensando nisso em uma alternativa para pessoas trans usarem o banheiro e isso é altamente discriminatório. O que as pessoas trans demandam é usar o banheiro conforme o gênero com o qual se identificam”, defende Jaqueline, destacando a importância do uso do banheiro baseado na identidade de gênero.

Morador da Cidade Tiradentes, Enzo Neves, 22, monitor de qualidade, enfrenta dificuldades diárias quando precisa usar o banheiro em locais públicos. Cerca de 61% da população da região de Enzo, a zona leste, é contra a criação de banheiros unissex.

“Eu evito ao máximo utilizar banheiro público. As pessoas olham estranho, nem sempre por repulsa, mas às vezes por tentar entender o que sou, ‘homem ou mulher’, homem por ter barba, mulher por ter peitos. Isso me deixa desconfortável, pois é apenas um banheiro.”

“Tenho medo de não parecer homem suficiente para estar em banheiro masculino, ser alvo de xingamentos ou até alvo de um possível assédio sexual”, conta Neves, que é homem trans, mas ainda não realizou a mastectomia (processo cirúrgico de retirada das mamas).

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A PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), em agosto de 2017, decidiu transformar um dos seus banheiros em um espaço unissex. Na época, a decisão criou um debate nas redes sociais e gerou bastante polêmica. Em sua página oficial, a universidade defendeu que “este sanitário é de uso comum, não direcionado a um público específico”.

Procurada pela reportagem, a PUC não quis se manifestar, pois “foi uma decisão natural, não sabíamos que ia dar tanta repercussão”, informou por telefone um funcionário.

Uma funcionária da PUC-SP, que pediu para não ter o nome revelado e será identificada como R.P., contou à reportagem como foi a reação de alunos e funcionários quando o banheiro foi instalado.

“Quando foi instalado esse banheiro unissex, me lembro que houve muitos comentários em relação a isso. A curiosidade das pessoas foi aguçada e muitas delas, entre funcionários, professores e alunos, foram conferir o novo espaço que causou muita polêmica.”

“Eu tenho um amigo que é homossexual e fomos juntos conferir o novo banheiro. A nossa reação foi uma das mais positivas, pois acreditamos no respeito à diversidade”, relembra R.P.

“A PUC-SP é uma universidade de vanguarda e com essa atitude provou mais uma vez que caminha junto com as mudanças que ocorrem na sociedade. Num mundo em que almejamos igualdade, a instalação de um banheiro unissex contempla uma ínfima parte do que merecemos. Penso que somente a sigla WC já seja suficiente para os banheiros. Ouvimos comentários negativos, mas, em termos gerais, o espaço foi bem aceito”, defende R.P., que trabalha na instituição há mais de 20 anos.

Depois da zona leste, a região central é a que mais reprova o uso de banheiros unissex, com índice de 56%. A professora Leona Wolf, 36, que também é integrante do Coletivo LGBT Prisma, traz uma explicação para esse dado.

“A marginalização do centro é diferente e mais desumana que das periferias. Na periferia se é pobre, mas todos são, as pessoas em geral são mais normativas, mas, no centro, você está à margem de direitos básicos como a vida e não é considerado humano”, explica a moradora do ABC Paulista, região próxima a zona leste.

Em relação ao uso dos banheiros, a professora afirma que o preconceito é motivado pela falta de costume com a diversidade.

“Eu sou trans, e, logo no início da transição, ficava receosa de não ser ‘entendida como mulher’ e causar constrangimento. A reação [das pessoas] muda de acordo com a leitura, mas é uma reação por falta de costume com uma diversidade, porque espaços segregados por gênero, por muito tempo, foram exclusividade de pessoas normativas e ocupar esses espaços é uma forma de ‘tornar comum’”, conta Wolf.

Centro Cultural São Paulo, no centro da capital paulista (Wikimedia)

O Centro Cultural São Paulo (CCSP) faz questão de trazer nas portas dos dois banheiros, feminino e masculino, a informação de que pessoas trans são bem aceitas nos sanitários correspondentes ao gênero de identificação.

Vinícius Máximo, funcionário do CCSP, explicou como foi o processo de inclusão das plaquinhas.

“Logo que a sinalização foi aplicada, alguns dos avisos foram danificados. Em alguns casos, recebemos denúncias dessas danificações via redes sociais. Mas também houve um retorno bastante positivo do público, principalmente nas redes sociais. Muitas pessoas ainda escrevem elogiando a iniciativa”.

A ideia surgiu de um projeto cultural que trabalhava questões de gênero e sexualidade com o público do CCSP, com palestras, todas de conversa e oficinas, em 2015.  

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“Entre as diversas atividades desenvolvidas pelo projeto, o grupo propôs uma ação nas portas dos banheiros da instituição que consistia em afixar um ponto de interrogação nos símbolos que comumente identificam os sanitários direcionados a homens e mulheres.”

“A intenção era questionar, justamente, as convenções sociais de gênero. A partir dessa experiência, o CCSP criou uma sinalização com imagens dos artistas Adoniran Barbosa [sanitário masculino] e Tarsila do Amaral [sanitário feminino]”, conta o editor do site do CCSP.

Em nota à reportagem, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania alega que “estudos sobre a questão da utilização de banheiros unissex são acompanhados por esta Secretaria bem como sua discussão com a comunidade de forma geral e com o público LGBTI, lembrando que tal tema também é objeto de análise junto ao Supremo Tribunal Federal”.

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