51% dos paulistanos aprovam adoção para casais de homens e de mulheres

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O maior índice de aprovação está na região oeste, com 61% de favorabilidade. Já a zona leste lidera em rejeição

Rejeição de adoção por casais homoafetivos é maior nas zonas leste e norte
O casal Daniela Ladario de Brito, e Rosalina Maximiano Feltrim (Paula Rodrigues/32xSP)

A encarregada de estacionamento Daniela Ladario de Brito, 36, conheceu Rosalina Maximiano Feltrim, encarregada administrativa, 42, há 14 anos. Foram amigos em comum que as aproximaram e, dois anos depois, elas se apaixonaram e começaram a namorar. Atualmente, dividem um sonho em comum: adotar uma criança.

O casal é morador da Vila Antonieta, bairro da zona leste de São Paulo. Os resultados da pesquisa “Viver em São Paulo: Diversidade” mostram que esta é a região em que os moradores menos aceitam a adoção por casais homoafetivos.

São 45% de aprovação na zona leste, seguida por 47% de aprovação na zona norte. O maior índice de aprovação está na região oeste, com 61% de favorabilidade.

Para adotar uma criança ou um adolescente na cidade de São Paulo, o primeiro passo é procurar a Vara da Infância e da Adolescência mais próxima, apresentar uma documentação simples (como documentos pessoais, comprovante de residência e atestado de antecedentes criminais) e manifestar o desejo de adotar.

O segundo passo é o procedimento de habilitação, que consiste em entrevistas com a equipe técnica, formada por psicólogos e assistentes sociais, para entender as condições em que o adotante tem para criar uma criança.

E não importa se é um casal homoafetivo, um casal heterossexual ou uma pessoa sola – o tratamento será o mesmo. É o que garante o Dr. Iberê de Castro Dias, juiz e assessor da Corregedoria Geral da Justiça do Fórum João Mendes Júnior, localizado na região central.

“Não existe nenhuma distinção, o procedimento é rigorosamente o mesmo, os requisitos são os mesmos, a ordem de preferência é a mesma. Estamos em 2018, não existe mais nenhuma distinção entre pretendentes de adoção”, explica.

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O juiz garante que todo o processo de adoção é pensado no ponto de vista da criança, não do casal. “Isso é bem importante, sempre funciona dessa forma: não é o casal que escolhe a criança, é o sistema de Justiça que escolhe qual é o casal mais adequado para aquela criança. A coisa sempre é feita da perspectiva da criança, a gente nunca procura criança para os casais, a gente procura adotantes para as crianças, temos que prestar atenção nas demandas daquela criança especificamente, qual é a história de vida dela, quais as necessidades que ela tenha”, conta.

De acordo com levantamento recente do Tribunal de Justiça de São Paulo, em todo o Brasil, há cerca de 40.600 grupos interessados em adotar. Já crianças e adolescentes aptos à adoção — ou seja, aqueles que já passaram pela destituição do poder familiar —  são aproximadamente 5 mil.

Desse montante, ao menos 39 mil adotantes querem crianças com menos de 8 anos. E entre as crianças e os adolescentes aptos à adoção, cerca de 1200 tem mais até oito anos. Em muitos casos também há grupos de irmãos. Isso reflete no tempo da fila que, dependendo do perfil pretendido, pode demorar até 8 anos.

O casal de arquitetos, Rafael Escrivão Sorrigotto e Luciano da Silva Rodrigues, ambos com 30 anos, foi beneficiado na fila de adoção por conta do perfil escolhido para as crianças. Depois de nove meses no processo de habilitação, demorou apenas um trimestre para que eles recebessem a ligação do Fórum.

“A gente queria um filho de três anos e dissemos que aceitávamos um irmão de até 6. Eles ligaram para a gente contando um pouco a história dos meninos e eu brinco que foi meia hora de ligação suando frio. Aí no último minuto de ligação, quando a gente já tinha acertado que passaria no Fórum no dia seguinte para ver as fotos e conhecer melhor a história deles, eles comentaram que o irmão estava um pouco fora do perfil, que ele não tinha 6 e sim 10, mas aí a história já está comprada, ele já era meu filho”, relembra Rafael.

Allan, que agora está com 12 anos, e Davi, com 4, estão com Rafael e Luciano desde novembro de 2015. O processo de adaptação com os pais foi muito rápido, principalmente para Allan. Para Rafael, isso tem a ver com a ausência paterna na vida dos irmãos.

“No dia seguinte, ele [Allan] já estava nos chamando de pai. Tanto ele quanto o irmão, que são de pais diferentes, nunca tiveram uma figura paterna. Então acho que facilitou muito adaptação deles com a gente, pois não estávamos concorrendo com imagem nenhuma. A mãe teve mil e um problemas, mas eles tinham afeto, tiveram um momento bom em família”, conta Sorrigotto.

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Para a psicanalista Lucineia Nicolau Marques, a preparação psicológica em uma adoção deve começar pela desromantização da própria adoção. “A primeira coisa é pensar nessa criança, porque que ela está institucionalizada. Tem um problema social grave e se a gente romantiza tudo isso, a gente coloca todo o foco nesse encontro, bonito e emocionante. Mas tem uma miséria ali por trás, isso é algo importante como preparação [psicológica]. Quando uma criança chega, ela traz uma história de abandono, não é uma história simples, e possivelmente passou por muitas violências. O foco tem que ser o problema social, saber que a criança virá com marcas e isso não pode ser apagado”, defende.

A psicanalista defende que a adoção não deve ser vista como ato de caridade. “Quando as pessoas estão na fila de adoção, é muito comum ouvir isso, que é bonito, que é solidário. É difícil ouvir isso para uma gestação. E isso constrói toda uma áurea de que a adoção é um ato heroico, salvador. Essa é a maior armadilha da adoção, porque o ser humano que vai vir não está nem aí para esse ato heroico, essa criança está querendo uma família, ela precisa de uma família, mas não por gratidão eterna. Essa criança está vindo machucada, se a pessoa entrar com esse ato de caridade, as chances de frustração são maiores, porque essa criança não sabe o que é gratidão”, completa.

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