Zona norte desaprova centros para pessoas em situação de rua

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Pesquisa sobre assistência social na cidade mostra que a política pública de acolhimento não é bem aceita pela população da região

Pessoas em situação de rua na avenida Cruzeiro do Sul, em Santana (Sidney Pereira/32xSP)

Os paulistanos da zona norte são os mais críticos da cidade em relação à abertura de centros de acolhida para as pessoas em situação de rua. É o que revela a pesquisa Viver em São Paulo: Assistência Social”, promovida pela Rede Nossa São Paulo e Ibope Inteligência.

O estudo pretende indicar como deve ser a atuação da prefeitura na melhoria das condições de vida dessa população.

Em Santana, a região da avenida Zaki Narchi tem cinco centros de acolhida, vizinhos a um conjunto habitacional com 700 famílias, a um hotel, shopping center e espaço para feiras e exposições.

Três centros ficam em um mesmo complexo e foram inaugurados em 2014, na gestão Haddad, enquanto o último foi aberto em dezembro de 2017, na gestão Doria.

A coordenadora Lígia Oliveira, 44, moradora do local, tem o perfil padrão apontado pela pesquisa na zona norte, e se manifesta contrária à criação de novos centros. Ela argumenta que, desde o início, os moradores tiveram “experiências horríveis, com casos de xingamentos, assédio e furtos”.

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“A gente se acostumou com a convivência, mas eles incomodam muito. Os piores horários são entre 17h e 18h, na entrada, e às cinco da manhã, na saída”, afirma. Na região norte, apenas 36% apoiam a medida, enquanto no centro da cidade a taxa atinge 45%.

No Parque Novo Mundo, o comerciante Givaldo Silva, 57, mantém um restaurante bem próximo ao novo Centro Temporário de Acolhimento (CTA). Ele também não considera que a abertura de mais locais para abrigo seja a melhor alternativa.

“Por que não investir esse dinheiro em creches, postos de saúde, escolas?”, pergunta. Ele afirma que, desde a inauguração do espaço, há sete meses, o clima de insegurança aumentou na região.

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“A vida piorou muito pra nós. Os funcionários que residem no bairro sempre comentam sobre roubos de celular. Também aumentou o número de pedintes na rua”, reconhece.

Em frente ao CTA, um ponto de ônibus tem sido evitado pelos moradores e trabalhadores da região.

Moradores da zona norte desaprovam centros para pessoas em situação de rua
No Parque Novo Mundo, ponto em frente ao CTA tem poucos passageiros (Sidney Pereira/32xSP)

“Principalmente as mulheres não usam esse ponto. Pra sair do trabalho, à noite, é sempre em grupo de três ou quatro”, conta.

Da mesma forma que 38% dos moradores da zona norte [o índice mais alto da cidade], o comerciante e a coordenadora se dizem favoráveis a oferecer cursos de capacitação profissional a essa população.

“Educação é o caminho. A maioria aqui é de jovens, rejeitados pela sociedade e que deveriam estar aprendendo uma profissão”, opina Silva.

Moradores da zona norte desaprovam centros para pessoas em situação de rua
O comerciante Givaldo Silva vê clima de insegurança, após a chegada do centro de acolhida (Sidney Pereira/32xSP)

Outra proposta levantada pela pesquisa diz respeito ao financiamento dos custos de viagem, para pessoas em situação de rua que queiram voltar às cidades de origem. 28% dos entrevistados na zona norte aprovaram a ideia, o maior percentual entre todas as regiões [a média da cidade foi de 23%].

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A coordenadora Lígia Oliveira concorda, mas acrescenta que a medida “deveria ter uma regra: a pessoa assinaria um documento se comprometendo a não retornar a São Paulo”.

Para a pergunta se a prefeitura “não deve permitir pessoas morando nas ruas, obrigando que todos encontrem um local para morar”, a pesquisa indicou a zona norte como a campeã de aprovação. Foram 18% dos moradores favoráveis a essa opção, acima da média de 15% das demais regiões.

Moradores da zona norte desaprovam centros para pessoas em situação de rua
A coordenadora Lígia de Oliveira relata “experiências horríveis” dos vizinhos dos centros de acolhida (Sidney Pereira/32xSP)

Os dois entrevistados pela reportagem do 32xSP não concordaram com essa proposta. Para a moradora da avenida Zaki Narchi, a medida “não tem lógica. Se não deixar na rua, tem que ir pro centro de acolhida”. Já o comerciante Silva afirma que “quem está na rua não tem outra opção pra morar”.