Construir habitações virou questão de vida ou morte, diz moradora

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Aos 47 anos, Irani coordena associação de luta por moradia na zona norte e afirma que o governo precisa olhar região para além do entorno do Metrô

Construir casas populares é questão de vida ou morte, diz moradora da zona norte
Irani Aparecida Pereira Dias é coordenadora geral da Associação de Luta por Moradia Estrela da Manhã (Paula Rodrigues/32xSP)

Durante o tempo de discurso reservado para munícipes darem suas sugestões sobre a proposta de lei orçamentária anual (PLOA) na Prefeitura Regional de Santana/Tucuruvi, uma pessoa se dirigiu à plateia e perguntou: “Qual é uma das principais demandas da zona norte?”. Prontamente foi respondida por um alinhado coro que gritou uma palavra só: moradia.

Das 190 pessoas que estavam no local, cerca de 15 decidiram falar. Quase todas propuseram ideias sobre a questão habitacional e fizeram questão de demonstrar publicamente carinho e respeito por uma mulher que se encontrava quieta no canto.

A mulher em questão é coordenadora geral da Associação de Luta por Moradia Estrela da Manhã (ALMEN). Irani foi a responsável por conseguir lotar a audiência pública.

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Ao final do evento, a maioria das pessoas esperou para despedir-se dela. Entre abraços e conversas rápidas, um homem expressou felicidade em ver o auditório cheio. “É assim que tem que ser; se o governo não faz, a gente faz”, respondeu Irani, referindo-se à divulgação das audiências públicas para o público.

De nome completo Irani Aparecida Pereira Dias, aos 47 anos, é formada em enfermagem e processamento de dados. Atualmente trabalha como instrumentista cirúrgica em uma equipe de urologia.

“Eu trabalho com pacientes que têm acesso à tudo aquilo que eu defendo, que tem acesso à uma saúde de alto nível, mas que o nosso povo aqui não tem”, ela explica, contando que por isso decidiu virar conselheira da saúde da UBS (Unidade Básica de Saúde) do bairro onde mora, o Jardim Brasil, na zona norte de São Paulo.

Além disso, é promotora legal popular, delegada do fórum de mulheres da zona norte, conselheira municipal de política urbana, e já foi eleita conselheira participativa por dois mandatos consecutivos, como a mulher mais bem votada da região da Vila Maria.

Já a trajetória de Irani na luta por moradia começou no Movimento Sem-Teto do Centro (MTSC), onde, segundo ela, aprendeu tudo que sabe sobre leis, como cobrar os governantes, quem procurar, como lutar… Tanto que organizou um novo movimento por moradia do zero.

Tudo começou quando famílias ligadas ao MTSC a procuraram para conversar sobre o desejo de criar uma frente de luta por moradia na zona norte da cidade.

“Eu acho que o morador da zona norte tem uma peculiaridade: ele quer morar na zona norte, eles não querem morar na zona leste, sul… E se a gente tem Zeis [Zonas Especiais de Interesse Social] em toda cidade, por que não criar uma associação que lute por moradia aqui?”, conta.

As Zeis que ela se refere são territórios destinados especialmente à moradia para população de baixa renda, sejam esses espaços já ocupados por habitações consideradas precárias ou terrenos vazios destinados à instalação de novas moradias de interesse sociais (HIS), como o CHDU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) e Cohab (Conjunto Habitacional).

No começo, eram 80 pessoas. Atualmente o movimento conta com 1.200 famílias ativas, separadas por três grupos: um na Vila Sabrina, outro no Lauzane Paulista e o terceiro na Vila Zilda – todos bairros da zona norte de São Paulo.

Depois de muita luta e ajuda, Irani conseguiu a posse de dois terrenos aptos para indicação para construção de conjuntos habitacionais: um na Avenida Sezefredo Fagundes e outro na Francisco Ranieri, que ela diz ser emblemático.

“Nesse terreno da Francisco Ranieri aconteceu uma coisa curiosa. Saiu governo, entrou governo, e nada foi feito lá, aí tudo ao redor evoluiu. Foi construído hospital, fábrica de cultura, casas, ele fica há oito minutos da Marginal Tietê… Ou seja, a infraestrutura ao redor melhorou muito”, conta Irani.

CASO DE VIDA OU MORTE

A construção de habitações no local tornou-se questão de “vida ou morte” para ela. Tudo por causa de um secretário que ela prefere não citar o nome. Ao abordar a questão do terreno em uma conversa, Irani disse que o secretário, em tom de brincadeira, disse que era “muita audácia querer colocar pobre para morar em uma região dessas”.

Para ela, esse tipo de pensamento reflete a forma como o governo olha para a zona norte da capital. “O governo enxerga a zona norte como apenas o que está em torno do Metrô. Só que o que você tem em torno do Metrô, na maior parte, é uma classe média alta. O governo não vai lá no fundão. O sentimento é de esquecimento mesmo. Às vezes parece que nem tem periferia por aqui”, explica Irani.

Foi esse sentimento de esquecimento que motivou Irani a criar e manter a associação, que possui duas características diferentes do padrão: a primeira é que eles não realizam ocupações em imóveis ou terrenos desocupados.

“Eu já participei de muitas ocupações antigamente, umas 53. Quando um movimento ocupa algum espaço, é para falar para o governo: ‘olha, a gente tá ocupando algo que não estava sendo utilizado, que estava sem uso e poderia servir de moradia para famílias que não têm casa’. Mas o que a gente vê hoje, uma parte pelo menos, são as pessoas ocupando para ganhar dinheiro em cima de gente que não tem nada, e eu não posso compactuar com isso”, afirma Irani.

Outra coisa que Irani e a Associação não fazem é ir para rua atacar ou defender governo. E explica que: “a resposta tem que ser dada na urna. Mesmo porque se a gente faz uma manifestação aqui, ninguém vai ver, e nossas famílias têm que trabalhar, não temos tempo de nos deslocar até o centro para isso”.

PROMESSAS

O discurso sobre esquecimento da região da zona norte de Irani foi reforçado durante toda audiência pública. Ao pegar o microfone para falar, os munícipes se queixaram sobre a falta de investimentos na região, que, segundo eles, possui um grande índice de arrecadação e pouco retorno. 

Das 25 mil Unidades Habitacionais prometidas pela Secretaria Municipal da Habitação por meio do Programa de Metas, 296 serão para a Prefeitura Regional de Santana/Tucuruvi, com prazo de construção entre 2017 e final de 2020. Até o momento, nenhuma foi entregue na região.

“Não sei, eu acho que isso tudo, essas audiências tipo a de hoje, são coisa pra inglês ver. Eles vêm, falam meia dúzia de palavras, não apresentam valores exatos de quanto vai ser direcionado para cada prefeitura regional, aí você faz as contas e vê que 80% do valor de arrecadação já está definido, os 20% que vão sobrar, mal vai dar para atender as subprefeituras no quesito zeladoria… E o resto das demandas?”, questiona Irani.

Mesmo não acreditando totalmente na eficácia de audiências como a da PLOA, Irani insiste em participar de todas, junto com as diversas famílias da ALMEN. Foi ela quem convidou todos via grupo de WhatsApp para o evento.

Construir casas populares é questão de vida ou morte, diz moradora da zona norte
Audiência sobre orçamento da cidade reuniu 190 pessoas em Santana/Tucuruvi, na zona norte (Paula Rodrigues/32xSP)

“Eu falei pra eles que queria ver isso aqui lotado, com gente em pé mesmo. Muita gente aqui vai pegar um, dois ônibus para voltar para casa, mas eles vêm, eles sabem da necessidade e importância de participar”, comenta.

Ela própria precisa pegar um ônibus de volta para o Jardim Brasil após o término da audiência. Ao se despedir, diz que ainda tem mais algumas horas de trabalho. Conta que só dorme às duas da manhã, e começa tudo de novo às seis horas.

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“É puxado, mas tem uma coisa que eu sempre falo para as pessoas ao meu redor, sendo elas da associação ou apenas moradores mesmo, que é: quem não é visto, não é lembrado. Participar de audiências como essa é uma forma da gente registrar nossa participação social, e é isso que faz com o que o nosso direito que tá escrito no papel, chegue de fato até nós. Ou pelo menos a gente tenta fazer chegar, né?”, finaliza Irani.

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