Teatro independente luta para sobreviver em São Paulo

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Editais e leis de fomento são importantes para a sobrevivência do teatro independente, porém nem todos os grupos conseguem ajuda de custo

Grupo teatral Pombas Urbanas encena peça na região central de São Paulo (Olímpia Beltrão)

De acordo com a Funarte (Fundação Nacional de Artes), a cidade de São Paulo possui 130 teatros. Informações extraídas dos guias de teatro da capital paulista apontam que cerca de mil espetáculos teatrais foram apresentados em 2017. No entanto, esse número não inclui peças de teatro infantil e trabalhos realizados nas periferias da cidade.

Produzir um espetáculo teatral exige, além do tempo dedicado aos ensaios e ao processo criativo, investimentos financeiros para a confecção de cenários, figurinos, iluminação e aluguel do espaço para as apresentações. Após esse período, é necessário ter o retorno do público – o que nem sempre é uma tarefa fácil.

Segundo a pesquisa “Viver em São Paulo: Cultura”, realizada pela Rede Nossa São Paulo e Ibope, 56% dos paulistanos não vão ao teatro e apenas 17% assistem peças teatrais ao menos uma vez por ano.

Tatiane Góis, 29, oficineira de teatro na Vila Brasilândia, na zona norte, diz que existem poucos espaços e equipamentos de acesso à cultura dentro das periferias, e essa ausência é um agravante para o baixo interesse da população.

“Sendo assim, os jovens são condicionados a não participar da produção cultural. Os poucos espaços que existem são distantes e a maioria das pessoas não consegue acessá-los”, analisa.

EDITAIS

Quando um coletivo de teatro não tem dinheiro disponível ou condições de investir financeiramente na produção de um espetáculo, uma alternativa é disputar os editais e leis de fomento que são promovidos pela Secretaria Municipal de Cultura.

O Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), criado em 2003, e o Fomento ao Teatro, estabelecido pela Lei nº 13.279, de 2002, são alguns exemplos.

Para o grupo Pombas Urbanas (que atua na zona leste de São Paulo e possui um instituto cultural que forma jovens atores nas periferias), essas políticas públicas potencializam as ações de coletivos na cidade, inclusive nas áreas mais afastadas do centro.

O grupo Pombas Urbanas começou suas atividades no bairro de São Miguel Paulista e atualmente concentra-se na Cidade Tiradentes (Reprodução)

“Políticas públicas como o Programa VAI, Fomento ao Teatro, Pontos de Cultura, entre outras, fazem com que a produção tenha um maior alcance. Isso movimenta a cena cultural em bairros da periferia, pois é algo que antes ficava extremamente restrito ao centro”, enaltece o grupo via nota enviada ao 32xSP.

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Apesar de não serem iniciativas permanentes, os editais e leis abrem espaço para os grupos, novos e antigos, atuarem na capital paulista durante seu tempo de vigência e ajudam o teatro independente a sobreviver. A concorrência, no entanto, é grande.

“A maioria dos artistas de teatro trabalha de forma independente. Em São Paulo, vários espetáculos entram em cartaz todos os anos, mas é uma minoria que possui um edital ou fomento”, afirma o ator Kiury, 36, que trabalha na área há 20 anos.

“Fazer teatro independente exige muita coragem, pois você vai investir muito, e muitas vezes não vai receber o valor financeiro investido. Teatro é surpresa. Não é o talento que te mantém na carreira artística, mas a sua vocação, pois é uma área instável”, complementa.

Kiury explica que, no caso de alguns editais, o grupo já recebe o dinheiro após a aprovação do projeto, porém quando se trata da Lei Rouanet, o processo é mais complicado.

Kiury já atuou em trabalhos com e sem grandes editais (Juja Kehl/Rafael Castilho/Divulgação)

“É difícil conseguir a Lei Rouanet e fica mais difícil ainda captar recursos depois. O produtor precisa ir atrás de empresas que patrocine o espetáculo e muitos artistas que não são famosos passam por dificuldades nessa fase”, complementa.

De acordo com a atriz Lígia Helena, 34, o valor necessário para se produzir um espetáculo teatral varia de acordo com as vontades e necessidades de cada grupo e com a quantidade de atores que fazem parte dele. Mas as dificuldades em se fazer teatro independente tem a ver com a precarização do trabalho do artista.

“Geralmente quando o grupo monta um trabalho sem nenhum tipo de apoio, incentivo ou ajuda de custo, isso reduz muito a quantidade de ensaios semanais, porque o artista é obrigado a aceitar outros trabalhos que paguem sua subsistência. Isso aumenta o tempo de produção e encarece o espetáculo”, conta.

Lígia também sugere que o trabalho do artista deveria ser melhor subsidiado pelas políticas públicas.

“Se você pensar o trabalho do artista como uma ação cultural na comunidade ou como uma interferência social, ele deveria ser subsidiado desde seu início. Não é só o produto final que é cultura, mas também o processo de criação de um espetáculo, a forma como ele se relaciona com o território onde ele é colocado e a forma como ele pesquisa e dialoga com o território, a comunidade e a cidade”, comenta.

“Teatro é sempre uma aposta; e é sempre uma aposta muito difícil. Essa precarização muitas vezes faz o artista não conseguir seguir nessa profissão”, diz.

Apesar das dificuldades na área teatral, a criatividade e a união podem fazer a diferença neste cenário. O MOTIN (Movimento dos Teatros Independentes de São Paulo), que surgiu em meados de 2013, foi uma iniciativa criada para ampliar o diálogo entre os espaços cênicos da cidade. Em suas redes sociais, o coletivo promove debates e divulgação de espetáculos.

De acordo com Bernardo Galegale, 33, diretor de teatro e membro do Movimento, o trunfo do teatro independente está no fato de diversas linguagens interagirem entre si.

“De certa forma, o que embasa a existência do MOTIN é a consciência e a valorização das diferenças entre cada teatro, entre suas estéticas e posicionamentos políticos. É a diferença que nos une”, declara.

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“Essa união entre os teatros é um fator inédito na classe que pode abrir muitas portas, além de melhorar nossa autoestima e fortalecer nossa relação com o público, pois é dele que precisamos e para ele que existimos”, completa Galegale.

DECADÊNCIA?

O estudante de teatro Sidney Rodrigues, 23, não é tão otimista em relação às novas ações que têm proporcionado mais espaço para o teatro e atingido públicos maiores. Ele não vê com bons olhos a cena da comédia stand-up.

“O cenário teatral hoje em dia está em decadência. O teatro tradicional luta contra a procura do público por espetáculos e apresentações de comédia, principalmente stand-up.”

“Já o teatro alternativo sempre foi uma tendência menos valorizada, pois muitas vezes os projetos não duram muito tempo por conta da falta de público e, principalmente, pela falta de insistência dos idealizadores e criadores das montagens do gênero”, desabafa o jovem.

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