Com poços contaminados, bairros do Grajaú seguem sem saneamento básico

25/07/2016 21:30 | Atualizado: 10/01/2019 20:50
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Região localizada às margens da represa Billings, em uma área de proteção ambiental, não possui abastecimento público de água, nem coleta de esgoto

“É uma água assim, pesada. Não tem gosto, nem cheiro, mas é pesada. Aí a gente cismou e parou de tomar”, diz a dona de casa Roselita Silva, 48, que mora na Ilha do Bororé, bairro do distrito do Grajaú, zona sul. A região localizada às margens da represa Billings, em uma área de proteção ambiental, a APA Bororé Colônia, não possui abastecimento público de água nem coleta de esgoto. Os moradores dependem de fossas e poços. Todavia, alguns poços estão contaminados, como o da casa de Roselita.

Em 2002, o biólogo André Simas publicou uma pesquisa realizada em 83 poços que abasteciam 86 casas do bairro. Na ocasião, as análises diziam que 43,4% dos poços estavam contaminados por coliformes totais e 31,3% por coliformes fecais, ambas bactérias intestinais.

A Associação de Turismo da Ilha do Bororé (ATIBORÉ) pesquisou metais tóxicos e fez análise microbiológica em 10 poços. Os resultados, publicados em 2012, apontaram a presença de alumínio, manganês e ferro acima dos valores máximos permitidos na água e que aproximadamente 90% dos poços estavam contaminados pela bactéria E.coli e coliformes totais. Já a bióloga Renata Bazante Yamaguishi avaliou em seu doutorado pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares quatro desses poços e uma nascente. A publicação de 2013 constatou que a construção inadequada dos poços, presença de fezes de animais, proximidade da represa poluída, vedação inadequada das tampas dos poços e presença de lixo nos arredores também prejudicam a qualidade da água.

Outros órgãos também fizeram avaliações, mas o 32xSP não teve acesso aos documentos. Os moradores dizem que apesar dos resultados das pesquisas, não há avanços para o abastecimento público de água e coleta de esgoto. Além disso, falta informação sobre como lidar com o problema. “Só falaram que não podia beber a água”, diz o aposentado Donizete de Azevedo, 53, que mora há 25 anos na Ilha do Bororé. A população costuma comprar galões de água para beber, mas usa o que vem do poço para cozinhar. Na casa de Roselita Silva, por exemplo, são consumidos em média seis galões de água por mês. Para cozinhar, tomar banho, fazer faxina e lavar roupa a família utiliza a água contaminada.

Outro problema destacado é que na região falta energia elétrica com frequência, algo que prejudica o abastecimento, pois para retirar água dos poços a população depende de bombas movidas à eletricidade. No ano passado, os moradores chegaram a ficar cinco dias seguidos sem energia.

A posição das autoridades em relação à falta de saneamento básico

Em março, aconteceu na subprefeitura Capela do Socorro um encontro que reuniu habitantes da Ilha do Bororé, Chácara Santo Amaro – outro bairro do Grajaú que não possui saneamento básico –, representantes de órgãos da prefeitura e da Sabesp para discutir o problema.

Questionada sobre as dificuldades para a implantação do sistema de saneamento, a subprefeitura informou por meio de nota que tanto a Ilha do Bororé quanto a Chácara Santo Amaro estão localizados em áreas de proteção ambiental, com legislação específica e rigorosa que dá diretrizes a respeito das intervenções que podem ser realizadas em áreas de APA. As questões relacionadas ao saneamento básico, rede de abastecimento de água e implantação de estação de tratamento de esgoto são responsabilidade da Sabesp.

A Ilha do Bororé, que é uma península, é habitada há mais de 100 anos Crédito: Priscila Pacheco

Entretanto, a Sabesp, empresa vinculada ao governo do Estado de São Paulo para realização de serviços públicos de saneamento básico, informa que há um impeditivo legal na Lei Específica da Billings (13.579/2009) que veta a implantação de rede de abastecimento de água e coleta de esgoto em áreas de ocupação irregular. Segundo a empresa, é preciso que as ocupações estejam regulares perante à prefeitura em relação ao uso do espaço e à Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), instituição ligada á Secretaria do Meio Ambiente do governo estadual, em relação a Lei Específica da Billings.

A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) organizou encontros com a população para conversar sobre o problema. Além de pensar em medidas educativas, a SMS informa que age somente como intermediadora e busca informações para avançar no diálogo com a Sabesp.

Enquanto as medidas dos poderes públicos seguem em lentidão, no território há quem invista em projetos sustentáveis que podem ser implementados em curto prazo. É o exemplo da Casa Ecoativa, centro eco-cultural mantido por habitantes do Grajaú. A instituição localizada na Ilha do Bororé, próxima à Primeira Balsa, implantou uma bacia de evapotranspiração (filtro de bananeiras) para tratar o próprio esgoto. Segundo Jaison Lara, 23, integrante da Ecoativa e morador da Ilha do Bororé, o projeto é economicamente viável. “Também pretendemos fazer um financiamento coletivo para construir outras bacias e atender mais gente”, comenta.

O caso dos bairros do Grajaú ilustra a situação do saneamento básico na metrópole. De acordo com dados do ano 2010 presentes no site da Rede Nossa São Paulo, 8,1% dos domicílios da cidade de São Paulo não estão ligados a rede de esgoto. Isso equivale a 290.195 residências. Já os dados referentes ao abastecimento público de água, também de 2010, abrangem somente a malha urbana da capital. Grande parte da região da Ilha do Bororé integra a área rural de São Paulo, mas há pontos denominados urbanos.

Na região urbana, 3,8% dos domicílios não possuem abastecimento público de água. Além disso, São Paulo aparece na 22ª posição do ranking do Saneamento Trata Brasil 2016, organizado pelo Instituto Trata Brasil. Estudos da organização ainda dizem que o acesso ao saneamento básico diminui a ocorrência de doenças gastrintestinais e gera economia ao Sistema Único de Saúde (SUS).