Moradoras da Jova Rural reclamam de esgoto a céu aberto

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Em jogo de empurra-empurra entre prefeitura, Sabesp e CDHU, população da zona norte não sabe de quem é a real responsabilidade para o problema

Esgoto vazando do lado de dentro da CHDU, na rua Paulo Mendes Rodrigues (Aline Kátia Melo/32xSP)

Na rua Paulo Mendes Rodrigues, na Jova Rural, bairro da região norte de São Paulo, é possível ver árvores frutíferas diversas. Pés de manga, limão, jaca, banana e abacate. Quem vê essa rua aparentemente tranquila não imagina o problema que os moradores enfrentam. Por lá, há um terreno de propriedade da CDHU (Companhia Habitacional de Desenvolvimento Urbano), com descarte irregular de entulho, vazamento de esgoto correndo a céu aberto e mau cheiro.

O descarte irregular é feito num terreno na parte baixa da rua, que tem formato de “u”. É uma parte menos vista, o que favorece que pessoas venham com veículos, descartem materiais e saiam sem serem vistos pelos moradores.

“Um dia eu vi jogarem entulho naquela árvore. Fui pedir para pararem e a pessoa disse: ‘Não é a calçada da senhora’. Nunca mais falei nada”, conta Lúcia Helena Caetano, 56, oficial administrativa aposentada. “Fui pedir por educação. Tadinha da árvore, eu cuido, varro essa calçada direto. Subo lá em cima, na minha casa, o cheiro horrível chega na minha janela”, completa.

“O pessoal joga lixo, abandona carro na rua. Quando chove o esgoto sobe pelas bocas de lobo, fede muito. É muito lixo, muita bagunça, jogaram pneus, é um perigo, junta água, dá inseto”, explica Dinalva Maria de Freitas, 54, cuidadora de idosos, moradora da região há 26 anos.

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Outra preocupação das moradoras são as chuvas de verão e os bueiros entupidos.

“Eu ligo para virem limpar os bueiros, mas não vieram ainda. Quando chove fica tudo entupido, desce aquele caldo grosso. Tem uma boca de esgoto, bem na frente do meu portão, às vezes entope e vaza, mesmo sem chover. A gente não consegue ver de dentro de casa quem joga entulho, quando a gente viu, os pneus já estavam lá”, comenta Lúcia.

“O esgoto está sempre entupido, eles põem uma mangueira, tira o grosso, enquanto não resolver de vez não tem jeito, e quando chove a gente sofre”, diz a manicure Maria da Luz, 50.

“Qualquer chuvinha que dá, já inunda tudo, merda sobe e sai aqui, ó”, diz Marilda, apontando para a boca de lobo.

“Nós já reclamamos com a Sabesp, já fomos em um monte de lugar. Dentro do terreno ali está correndo esgoto a céu aberto, a Deus dará. Estourou, quando entope lá sobe aqui. Para resolver, fazer um serviço decente, a Sabesp teria que vir, abrir e fazer uma nova rede de esgoto, não aqui na rua, mas daquele muro para dentro”, explica a auxiliar de enfermagem Marilda Ribeiro da Silva, 57, que mora na região há trinta anos.

Vista da rua Paulo Mendes Rodrigues e prédio verde da CDHU que desviou esgoto para essa rua (Aline Kátia Melo/32xSP)

Além do terreno com descarte de entulho, há uma questão envolvendo a rede de esgoto de um prédio da rua acima.

“Sabe esses prédios verdinhos da rua Ari da Rocha Miranda? Eles puseram a rede de esgoto para cá. Aqui piorou a situação. Olha essa marca aqui”, diz Lúcia Helena, enquanto mostra a marca de remendo no asfalto que vai de um lado da calçada para o outro.

Agora tem as chuvas de verão. Você viu como está tudo estourado ali embaixo, quando desce chuvona de verão volta tudo para cá e vaza aqui ó”, explica Lúcia, apontando para a tampa de bueiro na rua que fica em frente ao portão da casa dela.

“O prédio ali da CDHU, o esgoto era para descer ao lado do prédio. Ao invés de jogarem para lá, jogaram aqui, fizeram caixas de esgoto ali, aqui já entupia, jogaram a rede de esgoto lá de cima na nossa rede aqui, aí piorou”, diz Marilda.

Lúcia comenta sobre os protocolos com a Sabesp e CDHU. “Fui pessoalmente no posto de atendimento da Sabesp no CIC (Centro de Integração à Cidadania]  Norte no dia 04 de agosto de 2016. No mesmo dia liguei na CDHU e orientaram que enviasse e-mail para gestores do ‘Fale conosco’. Enviei o e-mail na mesma data e responderam que o número da minha requisição era 56.231, e que era para eu aguardar a resposta por e-mail. Em 21 de outubro de 2016 eles responderam que referente a essa requisição era para reclamar por meio de um telefone da área de obras da CDHU. Liguei. A pessoa falou que era melhor ir lá pessoalmente. Fui, gastei condução e me falaram que era para eu tirar fotos do local e voltar. Foi um descaso que não voltei mais”, desabafa.

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Desnorteados, moradores são sabem de quem é responsabilidade: se da Sabesp, CDHU ou prefeitura. “A gente vai atrás da prefeitura, dizem que é responsabilidade da CDHU. Dai a gente vai na CDHU, eles falam que esgoto é da prefeitura. Aí fica um jogando para o outro. A gente paga água, esgoto tudo regularizado, se eles cobram por que não podem vir resolver?”, questiona Maria da Luz.

“A prefeitura diz o que a gente pode fazer é limpar a rua, via pública. Lá a gente não pode entrar porque o terreno é da CDHU. É uma situação insalubre, aqui tem idosos, crianças”, completa Lúcia Helena.

Lado de fora do terreno da CDHU na rua Paulo Mendes Rodrigues (Aline Kátia Melo/32xSP)

OUTRO LADO

A reportagem contatou a Prefeitura Regional Jaçanã Tremembé no final da tarde do dia 5 por meio da página no Facebook. Dois dias depois, a equipe respondeu. “Foi feita a vistoria do local e mandado um ofício para a CDHU para que a Sabesp possa iniciar a obra”.

No dia 16 enviou ao 32xSP, por e-mail, o seguinte comunicado: “A Prefeitura Regional Jaçanã/Tremembé realiza serviço de limpeza ao redor deste terreno da CDHU semanalmente, sendo a última nesta terça-feira (13). A próxima limpeza está programada para o início desta semana. Cabe ressaltar que o local é ponto viciado de descarte irregular de entulho e a contribuição da população é essencial para evitar este tipo de ocorrência.” 

Por meio de novo comunicado enviado no dia 5/3, a regional afirma que: “1) O terreno é de propriedade da CDHU. Ou seja, a companhia é a responsável pela limpeza interna, calçada e proteção do terreno. Se o esgoto está dentro do terreno, cabe à CDHU tomar providências com a Sabesp; 2) A Prefeitura Regional já oficiou a CDHU para providenciar tais manutenções. A implantação e manutenção de esgoto é de responsabilidade da Sabesp. A Prefeitura Regional esteve in loco para sinalizar a ocorrência; 3) A limpeza externa do terreno, bueiros e zeladoria em geral a prefeitura regional é responsável, inclusive, informamos que foi feita a limpeza dos bueiros e a limpeza da área externa do terreno. Portanto, não se trata de um “jogo de empurra”, e sim, ter conhecimento que cada órgão tem sua competência para determinada ação, e se todos cumprirem com suas atribuições, poderemos dirimir as reclamações dos moradores. Lembrando sempre que, para serem atendidos com agilidade, é muito importante que o morador faça sua solicitação pelo serviço 156, assim, estaremos atuando dentro das nossas competências”.           

Em nota, a assessoria de imprensa da Secretaria Estadual da Habitação informou que a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) “realizou vistoria no empreendimento Tucuruvi B18, localizado na rua Ari da Rocha Miranda, ocupado em agosto de 2016; e no terreno desocupado na rua Paulo Mendes Rodrigues para verificar denúncia de entulho e esgoto a céu aberto. Foi constatado que o conjunto tem sua tubulação interligada à rede pública de esgoto de forma regular, conforme diretriz da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp)”.

Ainda conforme o comunicado, “no entanto, a rede pública de coleta de esgoto, que passa dentro do terreno desocupado, está obstruída e prejudicando o funcionamento normal do sistema de captação de efluentes. A CDHU está com processo licitatório em andamento para retirada do entulho e recuperação do cercamento do terreno. A recuperação do sistema de captação de esgoto será realizada pela Sabesp. A área desocupada tem vigilância contra ameaças de invasão”.

Em nota enviada pela assessoria de imprensa, a Sabesp respondeu que “realizou uma vistoria em conjunto com a Prefeitura Regional Jaçanã/Tremembé no último dia (7) e, em virtude do estado de conservação do terreno, não foi possível identificar a causa do problema apontado. A Sabesp aguarda a retirada do entulho do terreno para realizar nova vistoria”.

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