Metade da população avalia negativamente manutenção de ciclovias

19/09/2018 16:49 | Atualizado: 08/11/2018 15:11
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Buracos, desníveis no solo e falta de segurança são apontados como problemas nas vias e faixas destinadas ao uso da bicicleta

Ciclofaixa na rua Marquês de Lages, no distrito da Saúde, região sudeste de São Paulo (Eduardo Silva/32xSP)

Com 498,3 km de malha cicloviária permanente (sendo 468 km de ciclovias e ciclofaixas e 30,3 km de ciclorrotas), a cidade de São Paulo não tem agradado os ciclistas quando o assunto é manutenção e segurança.

Cerca de metade dos paulistanos avalia negativamente a manutenção das ciclovias da capital paulista nos últimos 12 meses, conforme aponta a pesquisa “Viver em São Paulo – Mobilidade Urbana na Cidade”, divulgada nesta semana pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência.

48% dos entrevistados afirmam que a manutenção é ruim ou péssima, além de 34% que consideram regular e apenas 11% que dizem ser boa ou ótima.

Para o urbanista e ciclista Ricardo Corrêa, 40, mestre em planejamento urbano e regional pela USP (Universidade de São Paulo), a condição das ciclovias na cidade é insatisfatória, tanto a manutenção quanto a segregação que elas têm pelos órgãos responsáveis.

“Quando uma ciclovia não é construída corretamente, seu desgaste fica mais evidente. Passa a não proteger minimamente o ciclista”, afirma.

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A segurança também é apontada como principal motivo para incentivar o uso da bicicleta na cidade – aliada à construção de mais ciclovias para interligar diferentes regiões. “Se houvesse segurança, atrelada ao conforto de uma ciclovia sem buracos e com uma boa arborização, com certeza teriam mais ciclistas nas ruas”, diz Corrêa.

EXPANSÃO

Estudos de implantação de ciclovias em São Paulo começaram a partir de 2008, quando o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) contratou de empresa de Ricardo – a TC Urbes, escritório de planejamento urbano – para que fosse executado um estudo preliminar de uma rede cicloviária para o município. Dessa forma, a Prefeitura poderia analisar a proposta e colocá-la em prática.

O estudo de Ricardo para o IEMA rendeu o guia “A Bicicleta e as Cidades: Como inserir a bicicleta na política de mobilidade urbana” (Eduardo Silva/32xSP)

O Instituto sistematizou intervenções cicloviárias que chegariam a 675,82 km de extensão. A TC Urbes, por sua vez, propôs aproximadamente 470 km, conectando as áreas da cidade com maior potencial de uso e integração com o transporte coletivo.

“Esses 675 km já possuem um indício do que vieram a ser os 498,3 km de ciclovias depois [da gestão] do Haddad (PT). Nós conectamos alguns pontos e fizemos um estudo preliminar de uma rede que não fosse tão bagunçada. Foi aí que traçamos a ciclovia da Avenida Paulista”, comenta Corrêa.

O urbanista também analisa que conectividade e qualidade seriam as premissas da implantação inicial das demais ciclovias – o que, na prática, não aconteceu.

“É o que o que cicloativistas chamam de ‘ciclocoisa’: não foi feito em cima de uma necessidade do ciclista, mas sim levando em conta onde atrapalha menos para os carros.”
Ricardo Corrêa, 40, mestre em planejamento urbano e regional

“A cidade não é preparada para o pedestre ou o ciclista, ela é preparada para o carro”, complementa.

Ciclofaixa na rua da Consolação, centro de São Paulo (Eduardo Silva/32xSP)

PEDALADA PERIGOSA

A falta de planejamento urbano quanto à questão do deslocamento, além da sensação de falta de segurança, impede que as pessoas usem a bicicleta para se deslocar pela cidade. Apenas 2% dos entrevistados na pesquisa afirmaram utilizar a bicicleta como meio de transporte mais frequente em São Paulo.

Morador de São Miguel Paulista, o vendedor João Santos, 55, gasta menos de 30 minutos de ônibus para chegar ao trabalho. Pela proximidade de casa, o deslocamento por bicicleta seria uma opção para a prática de exercícios físicos e uma melhor qualidade de vida. No entanto, ele prefere não percorrer as ruas do distrito dessa forma.

“O caminho que o faço não tem nenhuma ciclovia ou ciclofaixa. Se tivesse, eu até iria pedalando para o trabalho. Mas como não tem, eu não me arrisco. Os motoristas não respeitam quem está na bicicleta”, diz.

No centro de São Miguel passam cerca de 240 ônibus por hora no horário de pico (um ônibus a cada 15 segundos) e 1.830 carros, caminhões e motocicletas (um automóvel a cada 0,20 segundos). As informações são do projeto Área 40.

São Miguel também é o distrito de São Paulo com o maior número de acidentes de trânsito.

Ainda segundo a pesquisa de Mobilidade Urbana, “desrespeito de motoristas e motociclistas” está entre os principais motivos que impedem o uso da bicicleta pelos paulistanos como meio de transporte.

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Num cenário perfeito – e com uma boa infraestrutura em toda a cidade –, o paulistano utilizaria a bicicleta para chegar até o transporte coletivo de massa e a deixaria em um bicicletário público até sua volta para casa.

De acordo com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), para usufruir da integração modal, o ciclista conta com 6.149 vagas em bicicletários públicos e 121 paraciclos instalados nos terminais de ônibus e nas estações de trens da CPTM e do Metrô.

NOVO PLANO CICLOVIÁRIO

Com a proposta de transformar São Paulo na “capital da bicicleta”, a Prefeitura apresentou, no início de agosto, uma sugestão para o novo plano cicloviário da cidade que prevê construção de 1.420 km de malha cicloviária até 2028 e conexões nas estações do Metrô, CPTM e terminais de ônibus.

O prefeito Bruno Covas (PSDB) reforçou que não se trata de um plano, mas sim de uma proposta elaborada pelos técnicos da prefeitura. “Nós queremos debater essa proposta em toda a cidade de São Paulo, com a sociedade, profissionais e especialistas. Somente, ao final, é que nós teremos um plano fechado”, disse.

Ainda sem data definida, o projeto será discutido em audiências públicas nas 32 subprefeituras. A gestão não definiu prazos intermediários ou o custo estimado das obras, mas prevê a remoção de faixas exclusivas para bicicletas em locais que atrapalhem comércios ou que representem riscos aos ciclistas.

DEFINIÇÕES

Ciclovia: Via separada fisicamente para o tráfego de bicicletas, isolada dos demais veículos, cuja separação se dá por meio fio, grade, muretas, blocos de concreto ou outros tipos de isolamento fixo.

Ciclofaixa: Trecho compartilhado na mesma via, com separação feita com uma faixa pintada no chão, utilizando como divisores os “olhos de gato” ou “tartarugas”.

Ciclorrota: Caminho sinalizado, mas com veículos e bicicletas circulando juntos.

A CET também possui um mapa com a estrutura cicloviária permanente de São Paulo, que é atualizado conforme novas ciclovias são inauguradas (devidamente pintadas e sinalizadas). Confira aqui!

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