Moradores rejeitam mudança da Cracolândia para a zona norte de SP

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Prefeitura prevê transferência de tendas de assistência a usuários de drogas, na região central da cidade, para endereço próximo à rodoviária do Tietê

A região da Cracolândia, próxima a estação Júlio Prestes da CPTM, abriga dependentes químicos (Kátia Flora/32xSP)

“Cracolândia aqui, não!” Cartazes espalhados em ruas e comércios próximos à estação Armênia do Metrô, na zona norte de São Paulo, mostram o embate da população contra a possível transferência de usuários de drogas, que circulam na região central da capital paulista, para as imediações do Shopping D e do terminal rodoviário do Tietê.

A gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB) pretende fechar o espaço do Atende (Atendimento Diário Emergencial), no centro da cidade, e transferir o fluxo de pessoas para a zona norte.

Para “levar” os dependentes químicos até o novo endereço (a cerca de 3 km de distância de onde eles se concentram atualmente), foram instalados contêineres e tendas em um terreno público da Prefeitura na rua Porto Seguro, que fica numa travessa da avenida Cruzeiro do Sul.

Os Atendes são equipamentos que oferecem assistência aos dependentes químicos, como local de descanso, banheiros, refeitório e serviços de oficinas socioeducativas. Segundo a Prefeitura, atualmente o programa têm cinco unidades e todas seguem a mesma infraestrutura e modelo de atendimento.

FECHAMENTO DAS TENDAS NA CRACOLÂNDIA

Secretário especial de relações sociais, Milton Flávio, explica a situação do terreno da prefeitura na zona norte (Kátia Flora/32xSP)

Na última quinta-feira (25), a Associação dos Amigos do Mirante Jardim São Paulo e Região promoveu uma reunião no Santuário de Nossa Senhora da Salette, em Santana, para debater o assunto com moradores.

O evento reuniu cerca de 300 pessoas no salão de festa da igreja – entre eles, representantes do Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) da zona norte, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Santana, políticos e moradores.

Também estiveram presentes o secretário especial de relações sociais, Milton Flávio Lautenschlager, e o chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), José Castro.

Segundo Lautenschlager, os contêineres que estavam na rua Porto Seguro foram retirados pelos próprios donos e não há definição do que será feito no local. “Estamos discutindo os projetos para o recinto, não temos como trazê-los [os usuários] para cá. Precisam ter vontade própria e nada será feito sem a participação efetiva da população”, enfatizou.

Após o discurso do secretário, o público reagiu com vaias, reclamando sobre a postura de deixar a reunião sem uma proposta definida. A população também mencionou uma especulação imobiliária na Cracolândia como motivo para a retirada dos usuários do local, embora nada tenha sido confirmado por Lautenschlager ou José Castro.

Alguns contêineres foram retirados do terreno na rua Porto Seguro (Kátia Flora/32xSP)

Castro também discursou sobre a retirada dos contêineres e disse que o espaço está vazio. Segundo o chefe de gabinete, falar da transferência da Cracolândia como se as pessoas fossem objetos está descartada. “A Prefeitura estuda a amplificação dessa oferta de serviço no município inteiro, [mas] não tem orçamento alocado para abertura”, disse.

MORADORES QUESTIONAM

A socióloga Noemi Silveira, 62, morou em Campos Elíseos, região central de São Paulo, por 26 anos e acompanhou a chegada da Cracolândia nas imediações desde 1990. Ela se mudou para o distrito de Santana em 2016, depois que a Prefeitura desapropriou as residências da rua onde morava, com o projeto de revitalização para a futura instalação do hospital Pérola Byinton.

“Pensei que tinha me livrado deles. Estava super feliz, mas agora me sinto insegura”, lamenta.

O advogado Paulo Leme Filho, 47, que também reside em Santana, vê que a administração atual enxerga o problema dos usuários de drogas como territorial, “uma questão de meia dúzia de quarteirões para resolver a situação”.

Paulo Leme Filho critica transferência da Cracolândia para zona norte (Kátia Flora/32xSP)

Para ele, não houve mudança de foco em relação ao assunto, que é de extrema importância para a sociedade.

“É totalmente desumana a atitude do prefeito e isso não vai solucionar a condição dos ‘doentes’. Com isso, gera uma concentração de pessoas espalhadas em outros locais da região”
Paulo Leme Filho, advogado

O assessor parlamentar Dijair de Jesus Almeida, 61, diz que falta humanização do poder público com os usuários de drogas. “Muitas pessoas que estão nas ruas da Cracolândia têm onde morar, mas precisam de ajuda para retornar a sociedade”, comenta.

Almeida faz parte da ONG Remar Brasil, que existe há 25 anos, e todos os domingos à noite realiza um trabalho voluntário na região da Luz. Uma equipe serve janta e faz um convite para quem tem interesse na internação. “Hoje em dia o amor se esfriou, ninguém quer saber do próximo. É necessário trabalhar em conjunto para resgatá-las”, comenta.

Dados da pesquisa “Viver em São Paulo: Assistência Social”, promovida pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência, mostram que, na zona norte, 56% da população querem políticas públicas no combate ao tráfico de drogas e 38% pedem a construção de unidades de saúde especializadas para atender exclusivamente os usuários de drogas.

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Presidente da Associação dos Amigos do Mirante Jardim São Paulo e Região e organizadora da reunião contra a transferência da Cracolândia, a aposentada Alba Medardoni, 60, diz que o distrito de Santana precisa de mais investimento na segurança.

Alba fundou a associação há 19 anos e tem feito muitas atividades com as comunidades da zona norte. “Nós trouxemos um secretário [municipal] para a reunião, isso é muito importante para a população. O poder público precisa ouvir a voz do povo”, afirma.

Ainda será realizada mais uma reunião com moradores no dia 29 de novembro, no mesmo local.

RESPOSTA DA PREFEITURA

Em nota, a administração municipal informou que tem analisado as alternativas para o atendimento a usuários de drogas fora da região da Nova Luz. Não há, até o momento, definições de como será esse trabalho. Os usuários não ficarão sem assistência.

Desde a inauguração da primeira unidade, em junho de 2017, até o mês de outubro de 2018, os equipamentos do Atende já registraram, juntos, 1.373.338 atendimentos entre banhos, refeições, pernoites, oficinas e cortes de cabelo.

As abordagens são feitas na região de forma individual, baseadas na criação de vínculo com os agentes especializados e disponibilização de transporte para deslocar os usuários até uma das unidades do Atende. Durante 24 horas, a equipe da SMADS dá assistência e abordagem para usuários e encaminha para os Atendes.