‘O pior momento nas ruas são todos’, diz ex-morador de rua da Cidade Tiradentes

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Com quase 400 pessoas vivendo nessa situação, distrito da zona leste de São Paulo não tem nenhum tipo de centro de acolhimento

Jorge Oliveira morou nas ruas de Cidade Tiradentes, na zona leste, por sete meses (Eduardo Silva/32xSP)

São Paulo, zona leste. No terminal urbano de Cidade Tiradentes, as barracas e Kombis improvisadas com lanches e tira-gostos mexem com o olfato de quem passa e aguçam o estômago. “Me paga um churrasco”, pede um rapaz descalço, vestindo roupas sujas, ao abordar um homem que tinha parado para comer algo.

Nos últimos três anos, o movimento do comércio tem atraído pessoas em situação de rua, que pedem nas redondezas pelo pagamento de algum alimento para saciar a fome. Uma pequena praça, próxima ao terminal, está entre os 20 locais do distrito onde se concentram pessoas em situação de rua.

Em outro local, próximo ao Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), um dos pontos que também reúnem pessoas na mesma situação, um homem se junta ao asfalto como uma alegoria. Estava sentado em frente a um comércio fechado. Suas cores quase se agregaram às tonalidades e ao cinza da rua. O abandono e o desalento eram confirmados pela curta bermuda e o moletom encardido que usava naquele dia frio.

O “homem sem nome”, que preferiu não conversar com a reportagem, e o pedinte do terminal de ônibus fazem parte da crescente estatística de pessoas em situação de rua em Cidade Tiradentes: 397 até junho de 2018, de acordo com os dados cedidos pela Supervisão de Assistência Social da região.

A VIDA NAS RUAS

O cozinheiro Jorge Oliveira, 50, morador de Cidade Tiradentes, viveu durante sete meses nas ruas. Neste período, o alcoolismo o afastou de sua família, fazendo com que ele também perdesse o emprego e os documentos.

“Às vezes, a gente tem tudo e não dá valor: casa, comida… E quando vai parar na rua, se um amigo nos vê, ele atravessa a calçada para não falar com a gente. Comigo foi assim. Do dia para a noite, me vi só com um cobertor e sem nada para comer”
Jorge Oliveira, cozinheiro

O pior momento nas ruas são todos. Eu sei como é, [por isso] o que eu faço hoje é por gratidão pelo o que fizeram por mim um dia”, completa Oliveira, que hoje trabalha como cozinheiro no Centro de Acolhimento Aricanduva, na zona leste de São Paulo.

Ex-morador em situação de rua, Oliveira atualmente é funcionário do CTA Aricanduva (Eduardo Silva/32xSP)

Em toda a cidade, existem 15.905 pessoas nesta situação, conforme aponta o último levantamento feito pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), em 2015.

De acordo com o SEAS (Serviço Especializado de Abordagem Social) 4, responsável pelo atendimento de pessoas em situação de rua e que fazem uso abusivo de álcool e drogas em locais públicos, 765 pessoas foram cadastradas em Cidade Tiradentes desde o início do programa em 2015.

“Contudo, este número é maior, considerando que, para concluir a referência, é necessário o preenchimento de uma ficha. Alguns usuários não aceitam que o preenchimento da ficha seja realizado”, afirma Edson Souza, 30, gerente do serviço na região.

Atualmente, existem 224 usuários ativos e cadastrados no programa SEAS 4 em cerca de 20 pontos do distrito. As substâncias psicoativas com maiores índices de uso são álcool e crack em todas as cenas de uso mapeadas pelo programa. Além disso, o número de homens atendidos pelo programa é 446% maior do que o número de mulheres.

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“Aqui existem muitas regiões de mata e parte das pessoas nessa situação fazem uso nesses locais. Isso dificulta a abordagem pelo serviço e cria uma maior invisibilidade delas, que já sofrem com uma situação de invisibilidade social”, comenta Aparecida Ferreira de Paulo, 57, supervisora do SAS (Supervisão de Assistência Social) Cidade Tiradentes.

“Quem estuda essa área de pesquisa sabe, pelas histórias de vida, que não é o álcool e outras drogas que são efeito para provocar uma situação de rua. Antes do uso de drogas, pelo menos entre os homens, há uma relação com a questão da masculinidade provedora e também os laços familiares, que se relacionam pelo conflito violento”
Helen Barbosa dos Santos, doutoranda em psicologia social institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

As estatísticas se repetiram com Jorge, que decidiu sair de casa após os fortes conflitos com sua família.

“Era guerra quando eu chegava do trabalho e guerra quando eu saía. Deixei minha casa para não ter problemas com minha família e aluguei outra para morar sozinho. Lá, a solidão e o alcoolismo falaram mais alto. Perdi o emprego de chefe de pintura industrial e acabei nas ruas”, lembra com pesar.

Em todo o tempo em que esteve na rua, o cozinheiro nunca aceitou a ajuda de seus parentes, nem aceitava voltar para casa. “Pela vergonha de retornar sem emprego e acabar atrapalhando eles que também já estavam em uma situação difícil”, comenta.

ACOLHA-SE QUEM PUDER

O SEAS 4 oferece atendimento inicial e emergencial com entrega de kits de higiene individual, água e serviços de saúde continuados em parceria com outras políticas públicas a fim da redução de danos do consumo abusivo de substâncias psicoativas.

No entanto, a remoção para o Centro de Acolhida (CA) é feito somente pelo SEAS Itaquera, que inicia o atendimento no local após às 18h e tem abrangência da macrorregião Itaquera, Guaianases e Cidade Tiradentes. As remoções são feitas para o CA Dom Fernando, localizado na Fazenda do Carmo, no distrito de Itaquera.

Apesar de atender três regiões, o Centro de Acolhida Dom Fernando tem apenas cerca de 80 vagas para se passar a noite. “Acho que o que precisa aqui no bairro é um Centro de Acolhimento. Quando eu estava na rua, não via a hora de chegar o pessoal à noite e nos levar para beber um chá quentinho, tomar banho e dormir em uma cama”, lembra Oliveira.

O CTA Aricanduva oferece banho, café da manhã, almoço e jantar aos conviventes (Eduardo Silva/32xSP)

O procedimento padrão quando um Centro de Acolhimento alcança sua lotação máxima é oferecer a transferência para outros centros. Os mais próximos de Cidade Tiradentes estão nos distritos de Guaianases, São Miguel Paulista, São Mateus e Aricanduva, que contam com Centros Temporários de Acolhimento (CTA’s) e Centros de Acolhida.

A distância é um dos principais impeditivos para adesão ao serviço, de acordo com Jorge:

“O mais perto é o de Itaquera. Na maioria das vezes, voltamos andando para a Cidade Tiradentes; isso leva cerca de 1 hora. Se vamos mais longe, voltamos como? Ninguém gosta de dar carona para a gente nessa situação. Eu mesmo não pedia, pois tinha vergonha”

De acordo com a pesquisa “Viver em São Paulo – Assistência Social na Cidade”, publicada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência, 35% dos moradores da zona leste consideram que deveria haver ampliação dos Centros de Acolhida, Centros de Acolhida Especiais e Centros Temporários de Acolhimento.

Toda a rede conta com:

– Centros de Acolhida (oferecem serviços continuados)
– Centros de Acolhida Especiais (públicos específicos como idosos, mulheres, imigrantes, LGBTs, famílias e catadores)
– Centros Temporários de Acolhimento (destinados às pessoas que precisam de rápida acolhida e apoio a outros centros)
– Unidades de Atendimento Diário Emergencial (acolhimento e atendimento de dependentes químicos)
Núcleos (orientação e encaminhamento)
Espaço Vida (CTA’s e espaços de convivência)

O CTA do Aricanduva é o equipamento mais próximo de Cidade Tiradentes que conta com canil. “O cara na rua, a única amizade dele é o cachorro. Ele não vai deixar o animal sozinho e ir embora”, comenta Oliveira sobre a recusa de alguns moradores em irem ao CA de Itaquera, que não possui essa opção.

O CTA Aricanduva oferece 238 vagas, sendo 150 para homens e 88 para mulheres (Eduardo Silva/32xSP)

Ele também lembra os motivos que o faziam retornar ao seu ponto de origem, antes receber o acolhimento por esses serviços. “A rua vira sua casa, se você dorme em um canto da calçada, vai querer sempre aquele ponto. Se ficamos muito tempo longe, outro toma o nosso espaço”.

No tempo em que esteve na rua, Jorge vendia papelão e ajudava a descarregar caminhões para sobreviver. “A oferta de ‘bicos’, como reciclagem ou em obras de construção, também é um dos motivos que fazem com que eles criem esse senso de apropriação da rua como casa”, explica Edson Souza.

VENCENDO O ASFALTO

Com o uniforme do CTA, Jorge Oliveira trabalha na cozinha da unidade (Eduardo Silva/32xSP)

A volta por cima e a saída das ruas para Jorge Oliveira se iniciaram quando ele aceitou o atendimento pelo SEAS 4, que o auxiliou na retirada da segunda via de todos os seus documentos (perdidos nos tempos de embriaguez e relento).

Com parte de sua identidade recuperada, ele também começou a participar das atividades socioeducativas oferecidas pelo serviço, como partidas de futebol (Futebol Social) e uma roda de samba (Samba na Cena) feita por pessoas em situação de rua.

“Os programas criam vínculos entre os profissionais e a população nessas condições e ajudam a compreender as situações vivenciadas por eles nas ruas”, explica Aparecida Ferreira sobre a importância das atividades.

Participando do programa Trabalho Novo, que visa inserir pessoas em situação de rua novamente no mercado de trabalho, ele teve que fazer uma escolha. Aceitar uma vaga em sua antiga profissão como pintor industrial ou aceitar o convite para trabalhar como ajudante geral no CTA Aricanduva.

O coração falou mais alto e ele preferiu trabalhar no CTA como forma de retribuição pelo tempo em que foi acolhido. Responsável por limpar e organizar o local, por um acaso seu talento e gosto pela cozinha foi descoberto pela administração do órgão, que logo lhe ofereceu uma vaga de cozinheiro.

“No tempo em que morei na rua, eu fiquei oito dias sem comer. Quando isso acontece, você começa a ter câimbra, seu corpo inteiro dói. O alimento é algo que eu respeito muito, ele significa muito para mim e mais ainda para quem não o tem”

A nova profissão também colaborou para que ele recuperasse sua autoestima, diminuísse o consumo de álcool e retornasse à casa de sua família. Hoje ele vive novamente com sua esposa e os quatro filhos.

Oliveira também é voluntário no Centro de Acolhida onde trabalha e na unidade que era acolhido (CA Dom Fernando), auxiliando nas abordagens aos moradores de rua. “Faço muitas abordagens por conta própria, principalmente em dias que faz muito frio. Oriento as pessoas para buscarem ajuda nos CTAs”, diz.

O cozinheiro relembra quando Frei Robson Santos (administrador do CA Dom Fernando, onde Jorge recebeu seu primeiro acolhimento) o ligou em uma noite de inverno.

“Ele me perguntou se eu estava quentinho debaixo das cobertas. Eu disse que sim, então me falou que tinha muita gente morrendo de frio na rua. Não pude dizer ‘não’. Na mesma hora me levantei e fui ajudar com as abordagens. [Frei Robson] é uma pessoa maravilhosa”, revela emocionado.

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