Onde estão as pessoas com deficiência em São Paulo?

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Pesquisa da Rede Nossa São Paulo mostra que a maioria dos paulistanos não vê pessoas com alguma necessidade especial em ambientes de cultura e lazer

Andrea Schwarz escreveu o Guia São Paulo Adaptada em 2001 (Reprodução)

Lançada nesta terça-feira (04) pela Rede Nossa São Paulo e o Ibope Inteligência, a pesquisa “Viver em São Paulo: a cidade e as pessoas com deficiência” mostra que os locais na capital paulista que mais propiciam aos paulistanos algum contato com pessoas com deficiência são os hospitais e postos de saúde.

A menção representa 33% das respostas, seguida por shoppings (16%) e o local onde o entrevistado mora, como rua, vila ou condomínio (13%).

Adriana Gonçalves, 27, é auxiliar de enfermagem na rede pública de saúde e não acredita que o ambiente hospitalar seja o espaço onde as pessoas com deficiência mais são vistas.

“No hospital onde eu trabalho, só tem um cadeirante que vai lá sempre. O restante, quando está em cadeira de rodas, é porque passou mal e precisa ser levado para a emergência”, diz.

A auxiliar de enfermagem considera que o Metrô de São Paulo e estações de trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) sejam os locais mais frequentes onde uma pessoa com deficiência física está.

“Ali a gente consegue ver realmente quem é cadeirante. É mais raro alguém passar mal para ficar em uma cadeira de rodas”, comenta Adriana.

Ainda segundo o levantamento, 25% dos entrevistados afirmam ver “sempre” pessoas com deficiência no transporte público e 38% dizem ver “às vezes”.

ALÉM DA DEFICIÊNCIA FÍSICA

Ambientes de lazer, educação e esportes, como praças e parques (10%), escolas/universidades (3%) e clubes/academias (1%), foram pouco mencionados na pesquisa da Rede Nossa São Paulo.

84% dos entrevistados também afirmam que não possuem, moram ou convivem com alguém que possua algum tipo de deficiência física, visual, intelectual, da fala ou psicossocial.

A terapeuta ocupacional Vivian Gaona, 23, é uma exceção. Supervisora em um projeto que promove a inclusão de crianças com deficiência em escolas da rede pública de ensino, ela tem uma irmã, de quatro anos, com a síndrome de Down.

“Cinco meses depois que entrei na graduação, veio a notícia de que eu teria uma irmã com a síndrome de Down. Eu sempre estive próxima a pessoas com deficiência, mas, após isso, procurei participar ainda mais de grupos, encontros e projetos direcionados a elas”
Vivian Gaona, terapeuta ocupacional

Em São Paulo, quase três milhões de pessoas declaram ter algum tipo de deficiência, aponta o censo de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Desse total, 682,5 mil apresentam grau mais severo, sendo 345,4 mil delas com deficiência visual (não enxerga ou tem grande dificuldade para tal); 120,6 mil, auditiva; e 216,3 mil, motora. O censo também mostra que 127,5 mil paulistanos possuem deficiência intelectual.

Vivian considera que a capital paulista possui bons locais acessíveis, com destaque para os shopping centers. Mas ainda há muito para melhorar, de modo que pessoas com diferentes deficiências tenham mais autonomia para circular pela cidade e aproveitar as atrações que ela oferece.

“Seria perfeito ter mais locais em São Paulo com leitura em braile ou audiodescrição. Além de rampas, calçadas planas e a inexistência de degraus para quem tem limitações de movimento. Essas características também ajudam pessoas com deficiência visual”, analisa.

SÃO PAULO ADAPTADA

Em 2001, a empresária e consultora em inclusão social Andrea Schwarz, 42, que é cadeirante, escreveu, junto a seu marido e sócio, o “Guia São Paulo Adaptada”. O livro traz informações sobre locais acessíveis para pessoas com deficiência física na cidade de São Paulo, como shoppings, restaurantes e baladas.

“Quando a gente fez o Guia, era muito difícil encontrar um ambiente 100% acessível. Na época, tivemos a ideia de fazer uma sessão com os dez melhores locais para pessoas com deficiência na cidade, mas não conseguimos listar dez lugares que fossem totalmente acessíveis”
Andrea Schwarz, consultora em inclusão social

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Passadas quase duas décadas, Andrea aponta avanços do ponto de vista das edificações e estabelecimentos. Mas em termos de acessibilidade em ruas e calçadas, pouca coisa mudou. A empresária não consegue andar sozinha pelas ruas de São Paulo, por exemplo.

No caso de atrações culturais, ela evita locais com aglomerações. “Em um show, o espaço pode até ter uma boa estrutura e acessibilidade para receber uma pessoa com deficiência, mas chegar no local e sair dele que é o problema”, conta.

A analista de comunicação Marcela Jahjah, 37, costuma ir a cinemas, museus e exposições, sempre que vê um tema que lhe agrade. Outros locais, entretanto, ela descarta, seja por falta de afinidade ou devido à sua surdez.

“Um lugar que não frequento é teatro porque é impossível entender. Mesmo que haja intérprete de Libras [Língua Brasileira de Sinais], é complicado olhar para o intérprete, voltar a olhar para a peça e olhar de novo para ele… Cansa demais e eu acabo perdendo o fio da meada”, diz.

Em shows e baladas, Marcela também não vai por questões de gosto. “[Mas] conheço muitos surdos que adoram um show de rock, carnaval etc. Eles ouvem as batidas da música, sentem as vibrações e se divertem”, finaliza.

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