Distrito de classe média, Campo Belo é o pior de SP em indicadores sociais

14/01/2019 10:36 | Atualizado: 29/01/2019 13:26
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Urbanista responsabiliza administração pública e mercado imobiliário pela degradação da região, que obteve baixa avaliação no Mapa da Desigualdade 2018

O Campo Belo tem 18 comunidades com moradias precárias (Fernando Brisolla/Reprodução)

Área considerada nobre na zona sul da capital e que abriga o aeroporto de Congonhas, o Campo Belo esconde uma realidade nada agradável. O distrito aparece 15 vezes entre os 10 piores nos 53 indicadores sociais avaliados pelo Mapa da Desigualdade 2018, pesquisa da Rede Nossa São Paulo.

Cristina Antunes, 71, urbanista e conselheira do Conselho de Meio Ambiente (CADES) na subprefeitura Santo Amaro, critica o impacto da intervenção das administrações municipal e estadual no Campo Belo.

Ela afirma acompanhar o problema há 40 anos e avalia que houve falta de responsabilidade e sensibilidade de governantes sucessivos, além de interesses políticos e do setor imobiliário.

A urbanista Cristina Antunes culpa o poder público pela degradação do Campo Belo (Arquivo pessoal)

Segundo a urbanista, o Campo Belo passa a falsa imagem de uma região bem atendida. “O primeiro grande golpe no bairro foi a operação urbana Água Espraiada, que nunca foi concluída e atraiu uma população de baixa renda em busca de moradia, sobrecarregando os serviços públicos”, diz.

“Com a pressão do mercado imobiliário, proprietários de residências antigas foram compelidos a vender seus imóveis, que se transformaram em condomínios verticais.”

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A conselheira comenta que as obras trouxeram potencial construtivo para o bairro, permitindo o financiamento de habitações de interesse social, mas isso não ocorreu. “Até hoje há pessoas esperando por projetos de moradias populares ali”, diz.

Na opinião da urbanista, “intervenções segregacionistas e desastradas” na Cracolândia fizeram migrar uma população de usuários de drogas para a região.

“Na atual avenida Roberto Marinho, dá dor no coração ver a população de rua até dentro do canal do córrego Água Espraiada, debaixo das obras do monotrilho, outro desastre da administração pública”
Cristina Antunes, urbanista e conselheira do CADES

As obras atrasadas do monotrilho impactam na qualidade de vida no Campo Belo (Fernando Brisolla/Reprodução)

Cristina Antunes ressalta que a construção do monotrilho [linha 17 – Ouro] foi “violentamente rejeitada” pelas comunidades de Santo Amaro, em audiências públicas, abaixo-assinados e manifestações com faixas e cartazes.

“O Metrô nunca se sensibilizou com essas ações. Começou em 2011 e era para ficar pronto em 2014. Agora, já dizem que, com sorte, vai entrar em funcionamento em 2023”, conta.

Ela afirma que o conselho participativo da subprefeitura Santo Amaro, em várias situações, apresentou planos de atuação, mas “os governantes não têm autoridade urbanística, social ou democrática para acolher as propostas populares e nenhuma intenção de agir”.

Como exemplo, ela fala que o Campo Belo não tem nenhum Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) para atendimento na área de saúde mental. “As pessoas com problemas de drogas têm que ir até Santo Amaro para serem atendidas”, lamenta.

ARRECADAÇÃO ALTA, INVESTIMENTO BAIXO

Em 2017, a arrecadação de IPTU no Campo Belo passou de R$ 185 milhões, a 16ª maior da cidade, mas esse volume de recursos não impediu que a região atingisse baixos índices no Mapa da Desigualdade, principalmente em habitação, cultura e saúde.

Na área da saúde, o distrito fica na última posição do ranking em dois quesitos: não dispõe de nenhum hospital – apenas a Unidade Básica de Saúde (UBS) Jardim Aeroporto – e tem 13,97% de crianças nascidas vivas com menos de 2,5 kg, em relação ao total de nascidos vivos.

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Também é preocupante o desempenho na classificação que considera o número de horas ambulatoriais semanais de profissionais com vínculos no Sistema Único de Saúde (SUS), considerando-se médico pediatra, clínico, ginecologista e do programa Saúde da Família.

Neste ranking, o Campo Belo ficou em 93º lugar, com 2,99 horas, para cada mil habitantes. Para efeito de comparação, o primeiro colocado, a Sé, atingiu 76,49 horas.

O déficit habitacional também chama a atenção. Embora tenha empreendimentos de alto padrão, o Campo Belo tem 9,24% de seus domicílios em favelas. No total, são 1.562 moradias precárias em 18 comunidades.

Em seis indicadores culturais, o Campo Belo aparece na última colocação entre os 96 distritos paulistanos. Não há acervo de livros infanto-juvenis ou para adultos, e nem mesmo casas ou espaços de cultura, privados ou públicos, cinemas, museus ou teatros.

A UBS Jardim Aeroporto é a única unidade de saúde do distrito (Sidney Pereira/32xSP)

Saindo da única UBS do distrito, no Jardim Aeroporto, a zeladora Francisca Costa, 47, fala que sempre consulta o clínico geral, mas que o posto de saúde fica distante das comunidades do bairro [em 2013, por conta das obras do monotrilho, a prefeitura transferiu a sede da unidade]. “Foi uma pena. Antes, ficava perto da gente mais necessitada”, lamenta.

A empresária Daniela Barros, 39, mora no Campo Belo há 4 anos e diz não ficar surpresa com o resultado da pesquisa. Para ela, o problema mais grave é o impacto das obras atrasadas do monotrilho.

Com o “boom” imobiliário do bairro, aumentou o trânsito de caminhões, as ruas ficaram esburacadas e o número de usuários de drogas também cresceu.

Moradora em um sobrado ao lado da Favela do Piolho, Daniela reclama da sujeira e de uma fogueira queimando 24 horas por dia. “Além do mau cheiro, a casa fica cheia de fuligem”, diz

Segundo a empresária, um conjunto habitacional “gigantesco”, que estava sendo construído na avenida Roberto Marinho, para abrigar moradores dessa comunidade, está com as obras paralisadas.

Para ela, os moradores gostam do bairro, mas infelizmente não há uma atração cultural por ali. “Cinema ou teatro só em outras regiões”, diz. Daniela também aponta os frequentes acidentes de trânsito e as falhas no fornecimento de energia elétrica como dois problemas sérios no Campo Belo.

“Faltam semáforos, já pedimos à CET [Companhia de Engenharia de Tráfego] e a companhia respondeu que não havia necessidade. A frequência da falta de luz no bairro também é irritante”
Daniela Barros, empresária

PREFEITURA RESPONDE

A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) reconhece que, embora a população dependente do SUS corresponda a 30,3% da população total da região, o Campo Belo não possui hospitais e apenas uma UBS. Essa unidade presta atendimento de clínico, ginecologista, pediatra e equipe multiprofissional, além de uma equipe de Consultório na Rua.

O órgão orienta aos usuários a procurar atendimento em centros de Amparo Maternal e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24h Santo Amaro.

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A secretaria também alega que o distrito possui alto índice de gestação por tratamento de esterilidade, com gestação múltipla, e, por consequência, recém-nascidos de baixo peso.

Já a Secretaria Municipal de Habitação (SEHAB) informa que, “para a região sul e extremo sul, onde fica a subprefeitura Santo Amaro, o município vai beneficiar mais de 26 mil famílias com obras de urbanização ou construção de novas moradias até 2020”.

Sobre a má avaliação do distrito nos indicadores de cultura, a secretaria da área justifica informa que mantém seis equipamentos, todos em Santo Amaro, mas não explica o deserto cultural no Campo Belo.