Zona sul de SP lidera o número de notificações de agressão a mulheres

16/01/2019 10:40 | Atualizado: 29/01/2019 13:26
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Pesquisa da Rede Nossa São Paulo mostra que Jardim São Luís teve mais de 100 casos no ano de 2017; o número de denúncias aumentou 58 vezes em relação a 2016

Número de notificações de agressão a mulheres aumentou em São Paulo (Magno Borges/32xSP)

A cada 10 mil mulheres de 20 a 59 anos que moram no distrito de Jardim São Luís, na zona sul, 100 delas denunciaram ter sido vítimas de agressão ao longo de 2017.

A região lidera o número de casos na cidade de São Paulo, segundo dados recentes do Mapa da Desigualdade, divulgado em novembro de 2018 pela Rede Nossa São Paulo. Logo atrás segue o Itaim Paulista, no extremo leste, com 68,69 notificações.

Ao lado do Jardim Ângela, o Jardim São Luís faz parte da subprefeitura do M’Boi Mirim, onde vivem mais de 560 mil pessoas. O número de notificações de agressão no distrito, no entanto, aumentou 58 vezes em relação a 2016, quando foram contabilizados cinco registros a cada 10 mil mulheres.

No Itaim Paulista, o total de denúncias saltou de 15, em 2016, para 68, em 2017. Ainda na zona sul, o Jardim Ângela ocupa a terceira posição, com 67 casos, e Parelheiros, com 62.

Os dados são ainda mais expressivos quando comparados a outros distritos de São Paulo, como é o caso do Jardim Paulista, área nobre da zona oeste, onde o número de notificações não chega a uma denúncia para a mesma quantidade de mulheres (0,55).

“Esse dado trata apenas da quantidade de denúncias. Ou seja, de forma alguma isso significa que as mulheres são mais agredidas nas periferias do que nas áreas mais ricas. Em detrimento às regiões periféricas, os distritos considerados nobres, como os Jardins, possuem uma questão de subnotificação”, explica Américo Sampaio, sociólogo e gestor de projetos da Rede Nossa São Paulo.

Vanessa Molina, gerente e porta-voz da Associação Fala Mulher, também considera que os casos podem ser maiores do que os mostrados na pesquisa. “O número de denúncias é muito inferior à realidade em que as mulheres estão submetidas. Apesar de muitos avanços como a lei Maria da Penha e a lei do Feminicídio, ainda há lacunas a serem cobertas”, diz.

De acordo com a gerente, muitas são as razões que fazem com que a mulher evite a denúncia: medo, vergonha, dependência financeira, falta de credibilidade no sistema judiciário, bem como a falta de apoio familiar, apoio social e de políticas públicas.

Por outro lado, com a lei Maria da Penha e através dos movimentos feministas, a questão da violência contra a mulher tem tido mais evidência em discussões, reflexões e, principalmente, informação, o que leva ao aumento no número de denúncias.

“Há informação chegando para as mulheres sobre o que é a violência doméstica, suas cinco modalidades, a criminalização dos fatos e possibilidades de apoio e ajuda profissional para superar a violência sofrida e resgatar sua vida”
Vanessa Molina, porta-voz da Associação Fala Mulher

CASOS RELATADOS

Moradora da zona sul, Alice*, 35, foi casada por três anos e, depois de ser agredida pelo companheiro, fez uma denúncia contra ele e se separou. O julgamento ocorreu a seu favor. “Ele foi condenado e só então senti que houve justiça, pois muitas vezes as pessoas culpam as vítimas. Eu tive muito apoio, me senti acolhida pelo Estado”, conta.

Roberta*, 23, mora na zona oeste de São Paulo e conta que já sofreu agressões por um ex-namorado, há pouco mais de dois anos.

“Ele nunca me bateu, de fato, mas me trancava no quarto, me empurrava e apertava meu braço. Ainda gritava muito comigo e me xingava. Não sei se ele fez isso com outras ex-namoradas, mas uma vez a mãe dele me alertou: nunca deixe ele te maltratar”
Renata, moradora da zona oeste

O distrito da Lapa, onde Roberta mora, teve 10,87 notificações para cada 10 mil mulheres, em 2017. Ainda segundo o Mapa da Desigualdade, no mesmo ano ocorreram 22 casos de internações de mulheres residentes por causas relacionadas a possíveis agressões. Um ano antes, o número de internações foi zero.

Renata*, moradora da zona norte, sofreu agressões do namorado ainda da adolescência. “As agressões iniciaram com seis meses de namoro. Ele sempre pedia perdão e jurava que nunca mais iria acontecer. Ficamos, ao todo, mais de dois anos juntos e cheguei ir até a porta da delegacia, mas amigos disseram que era não fazer boletim de ocorrência para não complicar as coisas ainda mais”, detalha.

Dos distritos da zona norte, o que teve mais notificações de agressões em 2017 foi o Jaçanã, com 28,95 casos para cada 10 mil mulheres. O distrito também registou 21 casos de internações por causas relacionadas a possíveis agressões em 2017, ante nove no ano anterior — um aumento de 133%.

COMO DENUNCIAR

De todos os estados brasileiros, São Paulo é de onde mais partem as denúncias de violência contra a mulher. Foram 9.863 apenas no primeiro semestre de 2018. A mulher que sofre violência deve procurar ajuda através do Ligue 180, das Delegacias da Mulher e serviços especializados.

O Ligue 180 foi criado pelo governo federal, em 2005, para dar assistência às vítimas de agressão. Comandado pela Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres, o serviço funciona 24 horas, todos os dias, incluindo feriados e fins de semana.

Os Centros de Atendimento para Mulheres Vítimas de Violência contam com três unidades em São Paulo que oferecem apoio social, jurídico e psicológico, sem que a mulher precise de boletim de ocorrência.

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De acordo com Vanessa Molina, é necessário capacitar os profissionais que atuam nas delegacias da mulher, pois, muitas vezes a mulher que quer denunciar é desqualificada e desrespeitada quando procura ajuda. “É fundamental a implantação de políticas públicas para atender a mulher vítima de violência, com uma visão para o contexto familiar e social”, finaliza.

* Nome fictício a pedido da entrevistada

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Parelheiros, Perus e Itaim Pta. têm altos índices de mulheres internadas por agressão