Moradora da zona sul cruza a cidade em busca de ensino superior gratuito

11/02/2019 12:21 | Atualizado: 22/02/2019 12:58
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Das três universidades públicas instaladas na capital paulista, apenas a USP tem um campus em uma região periférica de São Paulo

Mônica mora no Grajaú, na zona sul, e estuda no campus Cidade Universitária da USP, na zona oeste (Jessica Bernardo/32xSP)

Era janeiro quando os candidatos da Fuvest, o vestibular para a maior universidade do país, esperavam ansiosos pelo resultado da prova. Há três anos, Mônica Freire, 21, viveu a mesma sensação.

Às vésperas da volta às aulas, que recomeçam no dia 18 de fevereiro, ela relembra a rotina intensa que vem junto com o estudo. Uma rotina que consome boa parte de seu dia e que é a mesma de vários moradores dos extremos de São Paulo.

Do alto da casa de Mônica, a vista do Jardim Noronha, no Grajaú, é uma das mais bonitas. À noite, os sobrados ficam iluminados pelo brilho alaranjado dos postes e do topo da laje é possível ver a extensão imensa do bairro no extremo sul.

Quando Mônica sai de manhã, rumo à zona oeste da cidade, o sol ainda não se ergueu imponente sobre a paisagem. É vendo os primeiros raios de luz despontarem no céu que a jovem de 21 anos embarca no primeiro ônibus para cruzar a cidade.

Terminal Grajaú, informa o letreiro. Ela sobe a rua, passa pela confeitaria da família e espera a lotação. Vem lotada, como define bem o substantivo da frase anterior. O ar condicionado não é suficiente para conter o calor humano.

Mônica diz que os motoristas também não colaboram e deixam a temperatura acima do ideal. Todos os dias, ela passa mal no caminho. Certa vez, até desmaiou no trem.

A Linha 9-Esmeralda é a próxima parada depois que a estudante desembarca do ônibus. São 12 estações até a Linha 4-Amarela. Até ali, Mônica já percorreu mais 30 quilômetros dentro da cidade. Uma distância que ela encara diariamente em nome do sonho de conquistar o diploma em letras pela Universidade de São Paulo (USP).

UNIVERSIDADE PÚBLICA

Vista do Jardim Noronha, no distrito do Grajaú (Jessica Bernardo/32xSP)

Mônica é a segunda pessoa da família a fazer uma faculdade pública. A primeira foi uma tia de Alagoas, que cursou letras na UNEAL (Universidade Estadual de Alagoas).

Em São Paulo, a parente de Mônica que chegou mais perto de entrar na USP antes dela foi Simone, uma tia que prestou vestibular para direito. Barrada pela prova, a tia de Mônica trocou a ideia da faculdade pública pela particular, mas o estudo não durou muito tempo.

Simone desistiu da empreitada depois de perceber que a distância entre o emprego, o curso e a casa era maior do que ela podia aguentar.

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A tia de Mônica chegava sempre atrasada nas aulas, não rendia o suficiente e passava boa parte do tempo com a sensação de que, naquelas condições, o curso não agregaria muito.

O valor da mensalidade também pesava no bolso e os problemas somados fizeram com que Simone deixasse para a geração seguinte a missão de completar o ensino superior.

Anos depois, a distância entre as universidades e as periferias continua presente na maior cidade do país. No extremo da zona sul, região em que fica a casa de Mônica, não há nenhuma universidade pública.

Grajaú, na zona sul de São Paulo (Jessica Bernardo/32xSP)

A primeira a aparecer no mapa é a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na Vila Mariana, que oferece apenas sete cursos — todos eles na área da saúde. Para quem quer optar por graduações como a de letras, escolhida por Mônica, é preciso avançar para a zona oeste, onde fica o campus Cidade Universitária da USP.

Para ir até lá, Mônica enfrenta duas horas no transporte público entre ônibus, metrô e trem.

“É muito tempo vindo para cá. É muito tempo voltando. Esse é um tempo que eu poderia estar estudando, que eu poderia estar lendo, que eu poderia fazer qualquer outra coisa”
Mônica Freire, universitária

ACESSO

Sala de aula da USP, no campus Cidade Universitária (Jessica Bernardo/32xSP)

Três universidades públicas têm sedes na capital paulista: USP, Unifesp e Unesp. Todas elas contam hoje com um sistema de cotas sociais e étnico-raciais. A USP foi a última a aderir à política de ação afirmativa e aprovou as cotas apenas em 2017. O mecanismo foi criado para aumentar o acesso das periferias à universidade.

Historicamente os alunos que se encaixam no perfil beneficiado pelas cotas eram barrados pelo vestibular — principalmente nos cursos mais concorridos.

Em 2016, por exemplo, 34,6% dos ingressantes na USP eram alunos da rede pública. Mas na Politécnica, unidade em que ficam os cursos de engenharia, apenas 20% dos aprovados haviam estudado em escolas públicas.

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Mônica sempre estudou na rede pública. No fundamental, foi aluna da Escola Estadual Professor Carlos de Moraes Andrade, no Grajaú. No ensino médio, da Escola Técnica Takashi Morita, em Santo Amaro. Foi na Etec que Mônica cultivou o sonho pela universidade pública.

“Quando eu estava no fundamental, eu pensava ‘ah, vou trabalhar e pagar a minha faculdade’, mas eu entrei na Etec e comecei a ver a possibilidade de conseguir mais, de entrar na USP. Virou o meu maior sonho e objetivo.”

Na escola estadual, conta Mônica, as conversas sobre universidades eram raras. Ela acredita que a história seria outra se um dos campi das estaduais ficassem na zona sul.

“Se tivesse uma universidade pública na zona sul, mais pessoas da periferia pensariam em entrar. Às vezes o aluno nem tem noção do que é a USP. Se tivesse alguma coisa mais perto, isso começaria a incentivar”
Mônica Freire, universitária

No início dos anos 2000, um movimento de comunidades na zona leste de São Paulo reivindicou a criação de universidades públicas na região. Foi nessa época, em 2005, que a USP criou o seu primeiro e único campus em uma região de periferia na capital paulista.

A USP Leste, na divisa com Ermelino Matarazzo, foi inaugurada com o objetivo de aumentar o acesso dos moradores das periferias à universidade. O projeto deu certo. A Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each), na USP Leste, é hoje uma dos campus da USP com mais alunos vindos de escolas públicas.

O projeto, no entanto, se restringiu à zona leste e as outras regiões periféricas da cidade continuaram desassistidas quando o assunto é ensino superior gratuito.

Para Mônica, a distância entre a casa e a faculdade se transforma em dificuldades no estudo. Nos finais de semestre, para conseguir entregar os trabalhos finais a tempo, ela dorme na casa de uma amiga da família, no Butantã.

O tempo que eu gasto no transporte é o tempo que eu poderia estar escrevendo um trabalho. A hora que eu estaria chegando em casa é a hora que eu tô parando de escrever lá [na casa da amiga]”, conta a estudante.

Nos dias em que dorme na casa da amiga, Mônica consegue acordar às 7h30 e chegar a tempo para a aula às 8h.

“Toda semana eu penso ‘queria tanto morar perto do Butantã’, mas eu não tenho condição, a minha família não tem condição de pagar para mim. O fator da distância eu acho que é o meu maior obstáculo para as coisas da faculdade”.

Mônica enfrenta duas horas no transporte público para chegar à universidade, no Butantã (Jessica Bernardo/32xSP)

Segundo a pesquisa “Viver em São Paulo: Mobilidade Urbana na Cidade”, da Rede Nossa São Paulo, os moradores da zona sul, como Mônica, são os que gastam mais tempo nos deslocamentos em São Paulo. São, em média, 2 horas e 56 minutos apenas no caminho entre a casa e o local da principal atividade do dia.

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“Dizem que a gente mora longe, mas se as coisas estivessem aqui, eles é que estariam longe”, reflete a estudante. No quarto ano da faculdade, Mônica ainda vai enfrentar mais dois anos cruzando São Paulo para conseguir o diploma de bacharel em letras.

OUTRO LADO

Procurada, a USP disse em nota que não há previsão para a criação de novos campi em nenhuma outra região de São Paulo.

A Unifesp afirmou que existe um projeto de implantação de um campus na zona leste da cidade, mas a construção aguarda liberação de verbas pelo Governo Federal.

A Unesp não retornou o pedido de nota até a publicação desta reportagem.