4 em cada 10 paulistanas já sofreram assédio no transporte público

15/03/2019 14:25 | Atualizado: 02/04/2019 11:27
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Pesquisa da Rede Nossa São Paulo e Ibope mostra que ônibus, trens e o metrô de SP são os locais que oferecem mais risco de assédio contra mulheres

Todos os dias, milhões de paulistanos utilizam o transporte coletivo na cidade. Somente o Metrô de São Paulo transporta, em média, 3,7 milhões de usuários nos dias úteis. Com a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), o número sobe para 7,8 milhões de passageiros na região metropolitana da capital paulista.

Além dos problemas e preocupações com o preço da passagem (neste ano a tarifa, no valor de R$ 4,30, teve reajuste acima da inflação), a lotação dos ônibus/vagões e a pontualidade dos coletivos, a população feminina passa por outro desconforto diariamente: a falta de segurança com relação a assédio sexual.

Dados da pesquisa “Viver em São Paulo – Mulher”, divulgada nesta semana pela Rede Nossa São Paulo e o Ibope, mostram que 4 em cada 10 mulheres entrevistadas (38%) afirmam ter sofrido assédio dentro do transporte público (ônibus municipais, trens e o metrô). O levantamento entrevistou 416 paulistanas com mais de 16 anos. Em 2018, o índice era de 25%.

A pesquisa também aponta o transporte público como o local onde as mulheres acreditam correr mais riscos de sofrer algum tipo de assédio, de acordo com 44% das entrevistadas. Na sequência, o maior perigo está nas ruas (23%), e em bares e casas noturnas (11%). Os pontos de ônibus também aparecem com 4% das menções.

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Maria da Silva (nome protegido a pedido da entrevistada), 24, foi uma das vítimas desta estatística. Ela voltava do trabalho por volta das 19h e embarcou na estação Marechal Deodoro, da linha 3-Vermelha do Metrô, em direção à estação Brás. Durante o tempo necessário para o trem percorrer cinco estações, ela foi assediada por um homem.

“Pra variar, [o Metrô] estava lotado. Entrei e fui para próximo da outra porta, no lado direito, para ficar mais fácil de descer no Brás. Estava conversando com meu marido, que na época era namorado, por mensagem e ouvindo música”, descreve.

“Aí chegou a estação Sé e foi aquele empurra-empurra de sempre. Me ajeitei e fiquei meio de lado, a bolsa pra frente. Na outra estação, em questões de segundos, eu senti uma mão em mim. Quando eu olhei pra baixo, era a mão de um homem. Quando ele viu que eu percebi, tirou a mão correndo”, continua.

A estação Sé é uma das mais movimentadas do Metrô. Por lá passam aproximadamente 513 mil passageiros em dia útil, considerando entradas, saídas e transferências entre as linhas 1-Azul e 3-Vermelha (dados de janeiro de 2019). Também é a estação com o maior número de casos de denúncias de importunação sexualentre setembro e dezembro de 2018.

“Eu gelei, fiquei em choque. Sempre dizia que se acontecesse comigo, eu gritaria, daria um soco. Inclusive havia pouco tempo que tinha acontecido um estupro coletivo no Rio de Janeiro e muita gente estava protestando, inclusive eu”, conta.

“Ficava indignada com essas coisas, dizia que tinha que fazer gritaria e barraco. Mas, quando aconteceu comigo, eu travei. Minha primeira reação foi abrir a câmera do celular pra tirar uma foto do homem – que estava de jaqueta vermelha”, lembra.

Ela conta que, tremendo, com ânsia de vômito e vontade de chorar, saiu do vagão e encontrou um segurança do metrô na plataforma, para quem pediu ajuda.

“Cheguei correndo nele e falei ‘me ajuda, um homem passou a mão em mim no vagão, socorro’. Ele falou no rádio para parar o metrô, que já ia sair da plataforma. Fui até a porta do vagão que eu estava e ele perguntou quem tinha feito aquilo comigo. Apontei e disse ‘aquele de vermelho’.”

DENÚNCIA

Em São Paulo, desde setembro de 2018, os casos de assédio sexual são tratados como crime de importunação sexual pela lei nº 13.718. Em todo o Estado, foram registrados 259 boletins de ocorrência de assédio em vias públicas após a legislação entrar em vigor. Destes, 130 casos ocorreram no transporte público.

Maria diz que a denúncia contra o importunador foi feita na Delegacia de Polícia do Metropolitano (Delpom), na Barra Funda, zona oeste de São Paulo. Os seguranças a escoltaram no próprio metrô até a delegacia e todo o procedimento foi acompanhado por eles. Ela lembra, também, que havia outro caso de assédio sexual sendo denunciado no local.

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“Fiquei das oito da noite até uma da manhã na delegacia, a pior experiência da minha vida. Eu me sentia invadida, violada, senti nojo, ânsia, chorei muito. E depois me disseram que ele já tinha passagem pelo mesmo motivo, tinha 37 anos e era professor, segundo ele, e que estava indo dar aula (mesmo sem nenhuma bolsa ou mochila com ele)”, afirma.

“A equipe do metrô me deu assistência desde a hora que eu pedi ajuda, até a hora que fui embora da delegacia, os mesmos seguranças ficaram ao meu lado o tempo inteiro, esperaram meu marido e meu pai chegarem e mesmo assim ficaram lá. Tanto que depois uma empresa de advocacia me ligou e perguntou se eu queria processar o metrô por isso, mas eu não quis, pois tive ajuda no momento”, comenta.

LEIS

Para a estudante de direito Mayara Itacaramby, 31, as denúncias ainda não são muito comuns em São Paulo porque muitas mulheres são questionadas ou desestimuladas a seguir adiante com a queixa.

“O procedimento de denunciar o assédio é muito vexatório. Muitas mulheres desistem porque elas vão ser questionadas sobre o ocorrido. O que ela passou vai ser colocado em dúvida, vão até questionar se ela não estava se oferecendo – porque ainda existe essa ótica machista no discurso”, afirma.

Caso semelhante ocorreu a uma amiga de Mayara, que também prefere não se identificar. Ela passou por um caso de importunação em 2017, também na estação Sé do Metrô, mas não seguiu em frente com a denúncia.

“Ela estava indo para a faculdade e, após muita gente entrar no vagão, ela sentiu algo molhado atrás dela. Quando virou, o cara estava com o pênis para fora, ejaculando. Outra mulher também reparou e gritou. Nisso, as portas do vagão se abriram e o homem saiu correndo”, diz.

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Na época, a supervisão da estação indicou que o ideal seria que a amiga fizesse um boletim de ocorrência. “Mas, por ver que não daria em muita coisa e o metrô não faria muito para ajudá-las na busca, ela acabou desistindo. Fez um texto no Facebook alertando sobre o ocorrido, mas que não obteve efeitos”, conta.

Ainda assim, Mayara acredita que a lei nº 13.718 trouxe mais respaldo para as mulheres vítimas deste crime. “Antigamente, mesmo com a denúncia, a situação caía num crime de estupro. E, no crime de estupro, você tinha que ter a conjunção carnal. Uma vez que não tinha conjunção carnal, não existia o crime propriamente dito”, afirma.

“Com o advento da nova lei, as mulheres se sentem um pouco mais respaldadas pela legislação no sentido de ‘existe uma lei para aquele crime, então a pessoa vai pagar por aquele crime’”, segue.

A estudante acredita que as mulheres estão mais conscientes sobre o que é assédio, os limites em relação ao próprio corpo e as causas pelas quais lutar. Ela também cita a importância de outras leis que protegem a população feminina.

“Leis como a lei do feminicídio, Maria da Penha e de importunação sexual foram alteradas para resguardar as mulheres. Ocorreram essas alterações legislativas por conta de episódios com homens não têm limites para com outro indivíduo – e esse indivíduo sendo subjugado como inferior por ser mulher –, tanto em casos de violência dentro de casa quanto de importunação em locais público”, finaliza.

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