Dobra preconceito no trabalho contra mulheres da zona norte de SP

18/03/2019 12:54 | Atualizado: 08/04/2019 11:52
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Pesquisa da Rede Nossa São Paulo e Ibope mostra que, em 2019, região foi a que teve o maior aumento nos casos de constrangimento no emprego

Quando Pauline Abe, 24, conseguiu um emprego como garçonete em uma cafeteria, ela também entrou para uma estatística. Tudo começou quando a jovem, moradora da Vila Mazzei, zona norte de São Paulo, passou a receber comentários sobre sua aparência, até ouvir um convite inadequado de um chefe. Por fim, se viu entre 24% das paulistanas que já sofreram algum tipo de preconceito por serem mulheres no ambiente de trabalho.

Ela está dentro do perfil de pessoas que mais teve aumento nos casos de constrangimento no emprego: moradoras da região norte com faixa etária entre 16 e 34 anos, segundo a pesquisa “Viver em São Paulo: Mulher e a cidade”lançada na última terça-feira (12).

Em 2018, o mesmo estudo, realizado pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope, mostrou que 12% das mulheres da zona norte afirmaram ter sofrido algum tipo de preconceito no trabalho. Neste ano, o índice duplicou, chegando a 23%.

Na capital paulista, esse percentual é de 24%, pouco mais do dobro em relação ao ano anterior, quando apenas 11% das paulistanas afirmaram sofrer preconceito por serem mulheres. Regionalmente, a zona leste lidera o número de denúncias com 26%, seguida pelas regiões centro oeste, sul e norte — com 25%, 24% e 23% respectivamente.

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Quando começou no novo trabalho, em 2018, o objetivo de Pauline era virar barista. Teve que esperar porque o responsável pelo bar estava de férias. Não o conhecia ainda, mas quando compartilhou a vontade de aprender a nova função, ouviu um alerta de outro colega. “Me falaram para eu tomar cuidado porque ele ‘mexia’ com as mulheres”, conta.

“Primeiro eu já achei estranho alguém me falar que ele fazia isso e ninguém fazer nada. Mas aí ele voltou de férias e realmente fez o que me falaram”, ela lembra, contando que por diversas vezes ouviu comentários relacionados ao seu corpo.

“Ele chegou a fazer comentários sobre minha bunda, eram coisas muito horrorosas que me deixavam muito constrangida.”

Pauline decidiu falar com o gerente do estabelecimento sobre o acontecido. Contou do assédio sofrido, e em uma conversa tranquila, chegou a ouvir um pedido de desculpas do responsável pelo bar, seguido por uma promessa de que aquele comportamento não se repetiria.

Passado o episódio, o homem chegou a oferecer a promoção sonhada por Pauline. Mas, para trabalhar como barista, ela precisava ser treinada por ele.

“Ele me levava pro bar para me ensinar a fazer as coisas, os cafés…Mas sempre que eu perguntava quando ele iria me contratar de verdade para a função, ele respondia: ‘semana que vem’”, relembra a jovem.

Os treinamentos continuaram, mas a “semana que vem” nunca chegava com a promoção. Até que um dia, Pauline precisou ficar até mais tarde no trabalho. Por conta do horário, aceitou uma carona do homem. Durante o curto trajeto de carro até o metrô, os assédios voltaram.

Pauline ouviu do responsável pelo bar convites impróprios. Recusou todos, educadamente, mesmo após insistência do homem.

“Depois disso, ele ficou muito bravo. Quando cheguei no dia seguinte para trabalhar, ele começou a me tratar muito mal. Descobri que ele tinha promovido um outro colega para a função que estava me treinando”, conta.

PRECONCEITO E ASSÉDIO

Histórias como a de Pauline são muito comuns no mercado de trabalho, de acordo com a advogada trabalhista Rosângela Labre. Ela afirma não saber quantos casos já cuidou, a respeito de denúncias de preconceito de mulheres contra algum superior. Para ela, “geralmente, tudo está muito atrelado ao assédio”.

Na maioria dos casos, a capacidade da mulher em exercer alguma função não é levada em consideração quando há alguma proposta de aumento de salário ou crescimento dentro da empresa. As pessoas em cargos mais altos costumam usufruir do poder e da necessidade da contratada que precisa manter o trabalho.

“Eu já atendi um caso em que um gerente de uma loja tentou a todo custo levar uma vendedora para o motel, abusando do fato de que ela precisava do emprego para ter renda”, conta a advogada. O final dessa história é bem parecido com o de Pauline: assim que recusou o convite, a vendedora passou por humilhações e xingamentos de cunho machista dentro da loja onde trabalhava.

Rosângela ressalta que isso ocorre com frequência com diversas mulheres em diferentes profissões. “Eu peguei casos assim de cozinheira, de empregada doméstica, de mulheres com cargos mais altos em empresas. Todas não estão livres de sofrer algum tipo de preconceito e constrangimento”, explica.

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A advogada trabalhista fala não apenas como especialista, mas também como vítima. Ela própria já passou por algumas situações enquanto exercia sua função.

Já cansou de ver clientes homens entrarem em seu escritório falando “quero falar com o advogado”. Em alguns casos, assim que ela respondia a pessoa com um “pois não, em que posso te ajudar?”, ouvia em seguida a resposta: “eu preciso de um advogado homem”.

Rosângela diz que geralmente, esses casos ocorrem quando homens procuram por defensores para casos de pensão alimentícia, porque “eles acham que advogada mulher não vai ser capaz de entender e vai querer ferrar com eles”.

Além dos clientes, a advogada também precisa lidar com colegas de profissão que muitas vezes não aceitam perder os casos para mulheres, especialmente quando são jovens.

“Uma vez eu saí de uma audiência que tinha acabado de ganhar. Fui cumprimentar o colega [advogado que estava defendendo o outro lado], estiquei a mão e ele me disse: eu não pego a mão de qualquer uma”, diz, relembrando que na época tinha acabado de se formar, e o outro advogado em questão já possuía mais de 30 anos de experiência.

MULHERES NEGRAS

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Aparecida Pereira Dias é é coordenadora geral da Associação de Luta por Moradia Estrela da Manhã (Paula Rodrigues/32xSP)

Ainda de acordo com a pesquisa “Viver em São Paulo: Mulher e a cidade”, se o número de pessoas jovens que afirmaram sofrer algum tipo de preconceito no trabalho por serem mulheres já é grande, as coisas pioram quando é feito um recorte de raça.

Das 416 mulheres paulistanas entrevistadas, 54% são brancas, enquanto 44% são negras. Mesmo assim, é este último grupo o que mais disse ter passado por alguma situação de discriminação.

Em 2018, durante uma audiência pública para discutir o planejamento orçamentário da cidade na subprefeitura de Tucuruvi/Santana, Irani dias, 47, se destacou como a líder do movimento que buscava mais moradias para as famílias da zona norte de São Paulo.

Durante a conversa, Irani contou que, além de ser conselheira da saúde, promotora legal popular, delegada do fórum de mulheres da zona norte, conselheira municipal de política urbana e ter sido eleita duas vezes como a conselheira participativa mais bem votada da região da Vila Maria, também é instrumentista cirúrgica e possui duas formações.

Agora, em uma conversa para esta reportagem — onde ela conseguiu citar o nome de pelo menos seis outras moradoras da zona norte vítimas de algum tipo de preconceito no mercado de trabalho — há espaço para ela própria contar que, apesar de toda sua vasta capacitação e experiência, até hoje convive com dúvidas e desconfianças de terceiros.

“Ser mulher no trabalho já é complicado, agora ser mulher negra é outra história”, diz Irani, enquanto vai puxando pela memória algumas das diversas vezes em que suas habilidades foram colocadas em cheque.

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Enquanto trabalhava como empregada doméstica tudo estava bem. Na época, ninguém questionava o fato de uma adolescente de 13 anos  ser uma “serva que ganhava quase nada e trabalhava muito”, como ela diz.

“O problema veio quando eu quis arrumar outros empregos, quando assumi cargos de chefia, muitas vezes em áreas onde só tinham homens”, relembra Irani.

Apesar da maioria dos casos de preconceito ter vindo de pessoas do sexo masculino, foi uma mulher quem mais prejudicou sua carreira na área de saúde, levando até a demissão.

Para Irani, a superiora não aceitava o fato de uma mulher negra periférica ter condições de estar na posição que ela estava. “Ela fez de tudo para me tirar do hospital onde eu trabalhava, e conseguiu. Era realmente uma perseguição”, conta.

E QUANDO HÁ DENÚNCIA?

A primeira coisa que a advogada trabalhista Rosângela Labre disse no começo da entrevista foi: “eu até atendo essas mulheres, mas é muito difícil ganhar o processo quando elas denunciam”.

A dificuldade, segundo a advogada, vem da falta de provas porque geralmente os constrangimentos acontecem de uma forma mais velada, em momentos que as duas pessoas estão a sós.

Para conseguir ganhar um processo de preconceito e assédio contra mulheres no mercado de trabalho, as provas diretas são fundamentais. “Tem muito juiz insensível, que só acredita na vítima quando ela consegue levar provas como gravações em vídeo ou áudio em que são mostradas algum tipo de discriminação”, diz Rosângela.

Há também as provas indiretas, como lembra a advogada, que são as circunstâncias onde a vítima não consegue nenhum tipo de material comprovando, mas consegue levar testemunhas que possam comprovar algum tipo de comportamento estranho dentro do serviço.

“Em casos que existem algum tipo de preconceito de um chefe contra uma secretária, por exemplo, se a vítima conseguir alguma testemunha que presenciou pelo menos o comportamento da mulher após ouvir algum tipo de manifestação imprópria do chefe, já é algo muito importante”, conta.

Os dados da pesquisa “Viver em São Paulo: a Mulher e a Cidade” evidenciam a situação vulnerável que as mulheres se encontram em diversos campos da sociedade. Como aprendizado, o estudo reforça “a importância das políticas públicas voltadas ao combate à desigualdade de gênero e violência contra a mulher”.

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