32xSP

Moradores da zona leste lideram queixas sobre combate a enchentes​

Em janeiro de 2019, a garagem da casa da comerciante Marli Almeida, 58, serviu de estacionamento para um meio de transporte inusitado. A rua onde mora, na Vila Itaim, extremo leste de São Paulo, sempre alaga, motivo que faz com que o carro dela fique na garagem de outra residência, a alguns quarteirões de distância.

Coberto de água após fortes chuvas que caíram naquela ocasião, o espaço foi então usado para guardar um barco de madeira, emprestado por outro morador e que servia para o deslocamento da família em meio ao alagamento que durou quase dois meses no bairro.

“Minha filha usava o barco para levar minha neta até a creche. Eram cinco minutos remando até lá”, conta.

Marli mostra no celular a foto de sua filha dentro no barco que era usado durante alagamento na Vila Itaim (Eduardo Silva/32xSP)

Outros moradores também usavam o “veículo” para passar pela água, que chegou a atingir um metro de altura. Já outros se viravam com botas de chuva de cano alto ou se arriscavam ao passar desprotegidos pela água acumulada nas vias.

VEJA TAMBÉM:
Arquitetura da enchente: a vida de quem tem a casa invadida pelos alagamentos em SP

Na região, o problema se repete há dez anos, mas houve três ocasiões nas quais a água das chuvas demorou meses para sumir: 2009 e 2014, e agora em 2019.

“Só que a rua onde eu moro sempre alaga, mesmo quando não estamos em períodos de chuvas de verão. Quando isso acontece, eu tenho que pedir para a Sabesp e a Prefeitura trazerem um caminhão pipa para sugar a água”
Marli Almeida, comerciante

De acordo com a moradora, quando o pedido é feito pelo portal SP 156, o atendimento leva cerca de 15 dias; mas, se for diretamente na subprefeitura de São Miguel Paulista, o caminhão vem entre um ou dois dias.

“Eles [a subprefeitura] sabem da situação da gente e se prontificam a ajudar da forma que conseguem”, diz.

Em março, a Prefeitura de São Paulo decretou estado de emergência em 33 vias dos bairros de Vila Itaim, Vila Aimoré e Vila Seabra, todas pertencentes à subprefeitura de São Miguel Paulista.

Atualmente, as ruas não estão mais cheias de água, no entanto, as ações de prevenção e melhorias ainda não foram feitas pelo poder público.

Marli mora na Vila Itaim e Aparecida é moradora da Vila Aimoré (Eduardo Silva/32xSP)

LEIA MAIS
Promessa de obras de combate às enchentes na Vila Itaim já dura 4 anos

Moradora da Vila Aimoré, Aparecida de Lourdes, 62, diz que a luta para limpar o córrego Itaim e prevenir enchentes na região já dura mais de 40 anos. O córrego enche durante as chuvas fortes e a água invade a casa de quem mora nas proximidades.

“A minha casa fica na divisa do córrego. O DAEE [Departamento de Águas e Energia Elétrica] fez um muro de contenção apenas em um lado do rio, prejudicando a vida de quem está do outro lado”, desabafa.

“O poder público fala que o lado oposto do muro é uma área invadida, mas não é. Nós pagamos nossos impostos. Agora tem casas que estão todas rachadas porque, depois que o muro foi feito em um lado, a água das enchentes passou a vir com mais força do outro”
Aparecida de Lourdes, moradores da Vila Aimoré

A obra mencionada por Aparecida foi realizada por uma parceria entre a Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado.

AVALIAÇÃO NEGATIVA

A atuação da administração municipal no combate às enchentes é avaliada negativamente por cerca de 7 em cada 10 moradores da zona leste, de acordo com a pesquisa “Viver em São Paulo: Meio Ambiente”, lançada nesta quarta-feira (15) pela Rede Nossa São Paulo e Ibope Inteligência.

O levantamento mostra que 76% dos moradores da região consideram ruim ou péssimo o papel da Prefeitura de São Paulo quanto a questões sobre inundação nos últimos 12 meses. Além disso, 18% dos moradores avaliam como regular e apenas 4% dizem ser ótima ou boa.

“A zona leste é uma região onde há muitas pessoas vivendo em áreas de várzea do rio Tietê, isso deve ter alguma influência no resultado da pesquisa”, sugere Euclides Mendes, 48, líder comunitário na Vila Itaim.

Mendes atua na cobrança de melhorias nos córregos da região, principalmente no córrego Itaim, que corta alguns bairros do extremo leste e se estende até a cidade de Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo.

Euclides Mendes defende a retomada de estudos no córrego Itaim para controle de enchentes no extremo leste (Eduardo Silva/32xSP)

“Aqui na região do Itaim nós temos vários córregos e um dos problemas é que eles passam por debaixo da avenida Marechal Tito e alguns ainda passam pela linha 12-Safira da CPTM [Companhia Paulista de Trens Metropolitanos], o que dificulta nosso trabalho”, explica.

“Outro problema é que os eles atingem duas subprefeituras: São Miguel Paulista e Itaim Paulista. Então, de vez em quando, ocorre de uma subprefeitura fazer uma ação e a outra não, e vice-versa”, completa.

PROJETO INTERROMPIDO

“Durante a gestão municipal de 2014, nós [moradores do bairro] pedimos que fosse feito um projeto para o córrego Itaim. Ninguém tem ainda o cálculo de quanto custa uma obra ali para prevenir as enchentes, mas, com o projeto, nós íamos ter uma visão do valor real para o custo dela”, conta.

Após reuniões com a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (SIURB), o projeto teve início em 2015, mas só durou até o ano seguinte, quando foi interrompido pela atual gestão da Prefeitura.

“A primeira medida que a gestão fez quando tomou posse foi cancelar o projeto que atenderia milhares de moradores”, afirma Mendes.

Na manhã desta quarta-feira, o prefeito Bruno Covas (PSDB) esteve no Itaim Paulista para dar início a expansão do Programa Wi-Fi Livre e disse brevemente que iria analisar a retomada dos estudos preliminares para o projeto.

A reivindicação será encaminhada para Gilmar Souza, subprefeito do Itaim Paulista, que deve repassá-la ao chefe de gabinete da Prefeitura.

Euclides Mendes, Gilmar Souza e Bruno Covas na manhã desta quarta-feira (Eduardo Silva/32xSP)

PLANO DE METAS

No mês de abril de 2019, a Prefeitura de São Paulo anunciou a meta de reduzir em 12,6% (2,77 km²) as áreas inundáveis na cidade. Para isso, a administração municipal realizará um conjunto de intervenções e obras para controle de cheias nas bacias hidrográficas da capital paulista.

Ao custo de R$ 998,4 milhões, as intervenções devem ficar prontas até 2020. Entre elas, estão as obras de macrodrenagem nas bacias do Ribeirão Aricanduva, na zona leste, e do córrego Tremembé, na zona norte.

O plano também aponta a realização de “obras de macrodrenagem em parceria com o DAEE no Polder Vila Itaim”, prometido inicialmente para 2014. Para conferir todas as ações previstas, clique aqui.

Outra alternativa utilizada na cidade de São Paulo para o controle de áreas inundáveis são os piscinões. Atualmente existem 25 piscinões no município, localizados dentro dos limites de 16 subprefeituras.

CONFIRA:
Moradores do Aricanduva reclamam de infestação de pernilongos

Essas estruturas são soluções de curto prazo para conter a água da chuva que acabaria ocupando ruas e avenidas e, consequentemente, causando enchentes e inundações.

Na média, os piscinões contam com uma capacidade total de 5,3 milhões de m³. No entanto, eles precisam estar livres dos detritos e do lixo que costumam chegar junto com as águas e que podem reduzir sua capacidade de armazenamento.

Em 2018, foram retiradas 176.407 toneladas de detritos desses reservatórios de retenção. No ano anterior, o número foi de 73.145 toneladas.