Como é o atendimento em Libras na rede pública de saúde de São Paulo?

09/03/2020 16:56 | Atualizado: 09/03/2020 18:56
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Pacientes falam da dificuldade em passar com um médico; intermediação de português/Libras em hospitais, UBSs, AMAs e UPAs soma 100 atendimentos mensais

Posto de Atendimento Presencial da Central de Intermediação em Libras, da Prefeitura (Reprodução/SMPED)

“Já fui a muitos postos de saúde, mas nunca encontrei alguém que se comunicasse em Libras [Língua Brasileira de Sinais]. Eu sempre me expresso por gestos, explicando que sou surda, mas as pessoas esquecem. Então eu fico lá esperando ser chamada no consultório, mas se me chamam pelo nome, como eu vou saber que é minha vez?”, relata a costureira Rita de Cássia, 52.

Surda desde os três meses de idade, Rita passa em atendimento pela rede pública de saúde na região do Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo, onde mora atualmente.

À nossa reportagem, ela conta, por meio do uso de Libras e da tradução de uma intérprete, que as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e os hospitais municipais não estão preparados para atender o cidadão surdo.

“É muito difícil. Eles querem mostrar escrita pra mim, mas eu não sou alfabetizada. Às vezes, eu nem sei qual medicação me passaram. Não me sinto confortável com essa situação”, diz.

Em São Paulo, 120.660 pessoas declaram ter deficiência auditiva severa, situação em que apresentam “grande dificuldade para ouvir” ou “não conseguem ouvir de modo algum”, segundo o último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

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Passar em consulta com um profissional de saúde que não entende a língua de sinais exige que o paciente esteja acompanhado de uma pessoa ouvinte –o que faz a pessoa surda perder sua independência, como explica a instrutora de Libras Bianca Sousa, 21.

“Quando eu tinha 19 anos, eu fui ao ginecologista pela primeira vez com a minha mãe. Além de me sentir desconfortável com ela no consultório, eu percebi que o médico não passava a informações diretamente pra mim. Isso me chateou bastante”, diz. “Eu fiquei pensando: o corpo é meu, a vida é minha, eu que deveria estar sendo informada”.

Moradoras do Itaim Paulista, Rita (à esq.) e Bianca (à dir.) se conhecem há quase 20 anos (Eduardo Silva/32xSP)

Hoje, ela busca ir sozinha às consultas médicas, mas nem sempre o atendimento é eficaz. “Nunca falaram em Libras comigo. Não quero ficar dependente da minha mãe novamente, mas quando eu vou sozinha ao hospital eu não consigo entender o que o médico está passando pra mim”, relata.

INTERMEDIAÇÃO EM VÍDEO

Para facilitar a comunicação, Rita passou a usar o recurso de videochamada no celular para que a filha intermediasse a comunicação entre ela e o médico no momento da consulta. 

“Uma vez eu fui mal-atendida e minha filha reclamou, falou sobre os meus direitos. Só depois disso que o médico me atendeu direito, porque antes ele não queria nem olhar na minha cara”, lembra.

Foi com essa mesma proposta de dar mais independência ao paciente com deficiência auditiva, surdo ou surdocego que a Prefeitura de São Paulo lançou em abril de 2018 a Central de Intermediação em Libras (CIL).

O atendimento é feito por meio de videochamada, onde o intérprete de Libras faz a intermediação remotamente entre o munícipe surdo e o servidor público municipal.

O serviço está disponível gratuitamente, 24 horas por dia, por aplicativo para Android e IOS, no website e em Postos de Atendimentos Presenciais (PAPs) que são instalados em equipamentos públicos do município.

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Nos equipamentos de saúde, como hospitais públicos, UBSs, AMAs e UPAs, atualmente 56 endereços possuem a central presencial (confira o mapa ao final da matéria).

De acordo com a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED), que administra a CIL, a média mensal é de 100 atendimentos no setor de saúde. 

“A média, até novembro de 2019, foi de 70 atendimentos. Nessa época tínhamos apenas 24 PAPs. Agora, nesse início de ano, somamos 100 atendimentos”, informa.

Para Bianca, a iniciativa é boa, mas o atendimento deveria ser presencial, com intérpretes nos locais. “Se eu vou ao médico, esse tipo de comunicação a distância pra mim não funciona”, conta. “Penso que o correto é sempre ter um intérprete nos lugares para que o surdo tenha o direito de perguntar e responder diretamente para um profissional.”

Rita compartilha da mesma opinião: “As pessoas que trabalham em hospitais precisam aprender Libras e exercer a cidadania de fazer cursos, porque a pessoa surda fica vulnerável. Os ouvintes nos deixam de lado, esperando, aí a hora passa e o surdo fica sentindo dor. Sinto tristeza quando não vejo pessoas qualificadas para isso”, desabafa.

CURSO DE LIBRAS

A Prefeitura de São Paulo também oferece curso básico de Libras para funcionários públicos, com o objetivo de dar suporte para quem atende pessoas surdas. A agenda de aulas é divulgada pela SMPED.

Até janeiro de 2020, a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência já tinha ministrado aulas de iniciação em Libras para 32 turmas, abrangendo mais de 700 servidores municipais. Além de hospitais municipais, também foram treinados funcionários da SPTrans, Ministério Público, Biblioteca Mário de Andrade e do Centro de Apoio do Trabalho e Empreendedorismo (CAT).

ATENDIMENTO EM LIBRAS NA REDE PÚBLICA DE SAÚDE (ENDEREÇOS):

A lista completa está neste link, que é atualizado sempre.