Paulistanas falam sobre divisão de tarefas domésticas e cuidado com os filhos

07/04/2020 11:36
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Cresce percentual de mulheres em São Paulo que dividem igualmente o cuidado com filhos, mostra pesquisa sobre relações de gênero na cidade

Thiago, Murilo e Maybi moram na Vila Curuçá, na zona leste de São Paulo (Eduardo Silva/32xSP)

Maybi Andrade, 32, e Thiago Camargo, 36, dividem no dia a dia os cuidados com a casa onde moram na Vila Curuçá, na zona leste de São Paulo. “A tarefa de manter o mínimo de limpeza fica mais comigo. Mas quando temos que fazer uma faxina na casa, os dois se unem para limpar”, comenta Maybi.

No mês passado, a Rede Nossa São Paulo e o Ibope Inteligência divulgaram a pesquisa “Viver em São Paulo: Mulher – 2020” sobre relações de gênero na cidade. Nela, o Ibope entrevistou um percentual de 54% de mulheres (460 paulistanas) e 46% de homens (370), de diferentes regiões da capital, idades, raças e classes sociais.

52% dos homens consultados afirmam que os afazeres domésticos, como lavar a louça, lavar a roupa, pôr o lixo para fora e preparar as refeições, são divididos igualmente dentro da moradia. Entretanto, quase 1/3 das mulheres (32%) afirma que, apesar da responsabilidade ser dos dois, são elas que fazem a maior parte desses serviços.

Camargo é fiscal de obras e trabalha de segunda a sexta-feira, das 22h às 5h. Já Maybi trabalha como recreadora infantil em eventos durante o período diurno —que são, em sua maioria, às sextas-feiras e aos finais de semana. Os horários diferenciados permitem que o casal compartilhe igualmente os cuidados com o filho Murilo Andrade, 7.

“A gente tem a conveniência de conseguir encaixar bem a rotina com os trabalhos que temos. Desde que o Murilo nasceu, eu me privei de trabalhar em horário comercial. Nas vezes que eu tentei [trabalhar nesse horário], não deu muito certo”, conta Maybi.

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O estudo da Rede Nossa São Paulo também mostra que cresceu o percentual de paulistanas que dividem igualmente o cuidado dos filhos com outra pessoa. Em 2019, o percentual de mães que declararam compartilhar os cuidados com a criança era de 20%; neste ano, avançou para 37%.

Para os homens, a proporção dos que afirmam dividir os cuidados de maneira igual, em 2020, é de 55%. Este foi o primeiro ano em que a série “Viver em São Paulo: Mulher” entrevistou tanto mulheres quanto homens, portanto neste recorte não há medida comparativa com edições anteriores.

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Também há um recuo na proporção de mulheres que não dividem os cuidados com ninguém: 33% em 2019, ante 18% em 2020. Apenas 5% dos homens entrevistados cuidam sozinhos dos(as) filhos(as).

Moradora do Itaim Paulista, na zona leste, a artesã Gisele Soares, 39, é mãe solo (termo usado para designar mães que são as principais ou as únicas responsáveis pelo filho). Há 15 anos, ela cuida sozinha da filha Stela Oliveira, que tem paralisia cerebral. Para isso, conta com o auxílio da mãe.

Em frente à estação Itaim Paulista da CPTM, Gisele vende produtos artesanais ao lado da filha Stela (Arquivo pessoal)

“Antes eu trabalhava na área de pesquisa [de porta em porta], mas tive que parar devido à dificuldade que era cuidar da minha filha. Eu precisava ter um cuidado maior com ela e estar mais presente”, diz a artesã. Ela não tem contato com o pai da Stela que, desde o nascimento da garota, nunca deu auxílio à família.

“É bem difícil cuidar de uma adolescente sozinha em São Paulo. Sendo mãe de uma jovem especial, essa dificuldade é duplicada”
Gisele Soares, artesã

Stela usa uma cadeira de rodas para se locomover pela cidade. Para ir ao médico ou a um passeio, muitas vezes Gisele circula com elas por locais sem acessibilidade ou por ruas e calçadas esburacadas —o que resulta em cansaço físico.

“Conforme ela vai crescendo, a gente também envelhece e já não tem a mesma força de antes”, diz a mãe solo. “Antes a gente saía mais, mas agora ficou mais cansativo. Faz tempo que a gente não se permite ter um lazer.”

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De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais de 9 milhões de mulheres brasileiras vivem sozinhas com os filhos. Em relação ao abandono paterno, 5,5 milhões de crianças no Brasil não têm o nome do pai no registro de nascimento.