“As pessoas acham que quarentena é jogo político”, diz moradora de Sapopemba

04/06/2020 18:39 | Atualizado: 04/06/2020 18:44
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Com o segundo maior número de óbitos pela covid-19 em São Paulo, distrito da zona leste tem enfrentado dificuldades para se proteger da pandemia

Talita Florêncio se recuperou da covid-19 em casa depois de 15 dias (Arquivo pessoal)

Moradora de Sapopemba, na zona leste de São Paulo, a arquiteta Talita Florêncio, 26, foi infectada pelo novo coronavírus no dia 11 de março, no começo da pandemia no estado de São Paulo. “Fui à Expo Revestir na quarta-feira com um grupo grande de pessoas. Quando foi no sábado, comecei a sentir alguns sintomas, como dor de garganta”, lembra.

Dois dias depois, ela foi avisada pelos amigos sobre pessoas que foram ao evento e haviam testado positivo para a covid-19. “Foi um desespero porque não tinha testes para todo mundo na UBS. Eles só estavam testando quem estava na UTI”, conta Talita, que tentou recorrer a um teste particular, mas não pôde arcar com o custo de R$ 400 para fazê-lo.

“Eu comecei a me sentir muito fraca. Minha mãe tem amigas médicas e elas diziam que não era para eu ir ao hospital de jeito nenhum. Só se eu estivesse com febre e falta de ar – coisas que eu não tive. O que eu tive por 15 dias foi um cansaço extremo e muita tosse no começo da manhã”, diz.

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Na região, quem também apresentou sintomas do coronavírus foi o publicitário Felipe Justino, 25. Ele relata que teve dores no corpo, falta de ar, fadiga, tosse e dores de cabeça que duraram por duas semanas.

“Estou trabalhando em home office desde antes da pandemia. Peguei do meu pai que foi o primeiro da casa a se contaminar. Mas como ele pegou não sabemos, só saímos para fazer compras no mercado”, comenta.

O teste para a covid-19 foi feito em um posto de saúde perto da casa dele no mês do maio. “Me encaminharam para uma ala que era exclusiva para suspeita de covid, mediram meu nível de oxigenação no sangue, temperatura e pressão, e me deram duas guias para fazer o exame no outro dia”, conta.

O publicitário Felipe Justino também testou positivo para o coronavírus (Arquivo pessoal)

Como o caso do publicitário não era grave, uma médica receitou o uso de dipirona, caso tivesse ele apresentasse febre, e soro fisiológico para fazer a lavagem do nariz.

“No outro dia, logo cedo, fiz o exame de sangue e o exame com o cotonete que colocam no nariz e na garganta. Um dia depois o resultado já havia saído, atestando positivo”, diz Justino, que foi orientado a não sair de casa durante 14 dias para evitar o contágio de outras pessoas.

AUMENTO DE CASOS NA REGIÃO

Sapopemba é o distrito mais populoso da zona leste de São Paulo (Ira Romão/32xSP)

Em Sapopemba, até o dia 18 de maio, 3.896 moradores haviam apresentado sintomas leves da covid-19 e outros 559 pacientes foram internados com casos moderados ou graves da doença. A maioria, entretanto, permanece em investigação, classificados como casos suspeitos.

A Prefeitura de São Paulo afirma que os casos graves “vêm sendo absorvidos pela rede hospitalar municipal e a estratégia de ampliação de leitos”. O Hospital de Sapopemba – que é de competência estadual – tem 95% dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e 90% leitos de enfermaria ocupados até esta quinta-feira (4).

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, a unidade conta com 40 leitos destinados ao tratamento da covid-19, sendo 20 de UTI e 20 de enfermaria. “Outros dez leitos foram instalados em maio no prédio anexo conhecido como ‘Sapopembinha’ para complementar a estrutura local. Destes, 80% estão ocupados”, pontua.

“Fundamental esclarecer que as taxas de ocupação das UTIs variam no decorrer do dia, em virtude de fatores como altas ou transferências para leitos de enfermaria, por exemplo”, complementa a pasta.

Em relação ao número de mortes, a região teve, até o dia 27 de maio, 205 óbitos (casos confirmados + suspeitos da doença), sendo o segundo distrito mais afetado da capital paulista, atrás apenas da Brasilândia, na zona norte, com 209 mortes.

O aumento refere-se ao boletim epidemiológico anterior, de 20 de maio, da Secretaria Municipal de Saúde

Sapopemba vem ocupando o segundo lugar no número de mortes provocadas pelo novo coronavírus ao longo de cada boletim epidemiológico semanal divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Desde o primeiro balanço, em 17 de abril, houve um crescimento de 301% nos casos fatais entre seus moradores.

MORTES POR COVID-19 EM SAPOPEMBA
Crescimento de 301% desde o primeiro boletim
Até 27 de maio – 205 óbitos
Até 20 de maio – 179 óbitos
Até 14 de maio – 152 óbitos
Até 30 de abril – 101 óbitos
Até 24 de abril – 77 óbitos
Até 21 de abril – 64 óbitos
Até 17 de abril – 51 óbitos

DESIGUALDADES SOCIAIS

O bancário Leonardo Souza, 24, considera que as condições sociais da região têm contribuído para o crescimento no número de casos e de óbitos. “Sapopemba tem uma densidade demográfica muito grande. E, no geral, temos menos acesso a serviços básicos de saúde que os outros bairros possuem. Temos o Hospital Estadual de Sapopemba, mas está sempre lotado”, diz.

Ele também cita que muitos moradores trabalham informalmente ou nos serviços essenciais à população, e não puderam ficar em casa durante a quarentena adotada na cidade. “Conheço pessoas que são enfermeiros e motoristas de ônibus. Além disso, sei de muita gente que tentou o auxílio emergencial [de R$ 600 do governo federal] e não conseguiu”, conta.

Hospital Estadual de Sapopemba tem 40 leitos destinados à covid-19 e um prédio anexo (Ira Romão/32xSP)

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Sapopemba é o distrito mais populoso da zona leste de São Paulo, com aproximadamente 284 mil habitantes. Segundo o Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo, mais de 18 mil domicílios do distrito ficam em favelas ou cortiços.

Este é outro fator apontado por Souza: “Por aqui tem muitas áreas de comunidades com situações bem críticas. As casas são pequenas, muito próximas uma das outras, e geralmente com muitas pessoas vivendo juntas”.

Em relação ao cumprimento da quarentena e aos cuidados de higiene (indicados pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde para conter o avanço da covid-19), Talita Florêncio observa que o bairro não tem respeitado corretamente, seja por dificuldades financeiras ou desinformações.

“No começo, o pessoal até aceitou bem. Mas depois, quando começaram a surgir dúvidas sobre a doença e questionamentos (da parte do governo mesmo), as pessoas passaram a furar a quarentena”, conta.

“O que eu ouvi bastante por aqui é que as pessoas acham que a quarentena é um jogo político, e não uma questão de saúde”
Talita Florêncio, arquiteta e moradora de Sapopemba

Para a arquiteta, muita gente acaba abrindo mão de alguns cuidados de higiene por falta de dinheiro. “Muda muito se você tem dinheiro para comprar álcool 70%, álcool em gel… Aqui em casa a gente consegue comprar, mas não é todo dia que as pessoas têm R$ 9 para dar em um litro de álcool… porque comprar um saco de arroz é mais importante”, finaliza.

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