Distribuição gratuita de medicamentos é mais utilizada na região leste de SP

21/07/2021 16:18 | Atualizado: 21/07/2021 16:47
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Segundo pesquisa, 63% dos entrevistados da zona leste responderam usar esse tipo de serviço; saiba como conseguir remédios gratuitos pelo SUS

Gisele Willisk Pereira, 31, é enfermeira e faz uso de um medicamento chamado cabergolina há 15 anos. Indicado para o tratamento de adenomas hipofisários (um tipo de tumor benigno em uma glândula cerebral), a caixa com oito comprimidos é vendida em grandes redes de farmácias por volta de R$ 120, na versão genérica. 

Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo (Léu Britto/32xSP)

Ao retirar o remédio pelas “farmácias de alto custo” do SUS (Sistema Único de Saúde), Gisele já economizou cerca de R$ 11 mil desde o início do tratamento.

Moradora da Vila Progresso, bairro do distrito de Itaquera, ela é uma das milhares de pessoas da zona leste de São Paulo que usam os serviços de distribuição de medicamentos oferecidos pelo sistema público de saúde.

Segundo a pesquisa “Viver em São Paulo: Saúde e Educação” de 2021, feita pela Rede Nossa São Paulo, os moradores da região leste são os que mais retiram medicamentos gratuitamente. 

63% dos entrevistados da leste responderam usar esse tipo de serviço, 7% a mais que os moradores da zona norte, a segunda região que mais recorre ao SUS para conseguir remédios.

A pesquisa indica também que este é o serviço público de saúde mais usado pelos paulistanos (55%), seguido pelo atendimento ambulatorial (54%) e consultas com especialistas (42%).

63% dos moradores da zona leste usam os serviços de medicamento do SUS (Magno Borges/32xSP)

Gisele também faz parte de um outro grupo bem comum de acordo com a pesquisa: o de usuários de plano de saúde que retiram medicamentos pelo SUS. É o serviço público mais usado por essas pessoas. 

O levantamento aponta que 29% dos paulistanos têm um plano de saúde. Destes, metade respondeu que procura o SUS para obter os remédios receitados pelos médicos.

É o caso do aposentado João Feliciano, 57, morador do Jardim Ipê, bairro do distrito de São Miguel Paulista, na zona leste. 

“Tenho plano de saúde, mas alguns remédios são caros e eu pego gratuitamente no SUS. Pego todo mês, tem mês que está em falta, mas aí vou em outras UBS (Unidades Básicas de Saúde) e consigo”, explica. 

João toma normalmente seis remédios e cinco deles são encontrados no posto de saúde. “Só um que não encontro, aí tenho que pagar na faixa de R$ 60 todo mês”, conta.

Quando não é possível obter os remédios que precisa pelas UBS, o aposentado  recorre a Farmácia Popular, serviço que permite retirar remédios para algumas doenças específicas, como pressão alta e diabetes, em farmácias comuns credenciadas.

“Tenho uma boa economia no mês, se tivesse que comprar todos esses remédios com certeza gastaria mais de um terço da minha aposentadoria. Isso é o que a maioria dos aposentados passa: se aposenta para ter uma tranquilidade, mas o que recebe é para gastar em remédios”, desabafa João.

SERVIÇOS DISPONÍVEIS

Quando se pensa em pegar remédios pelo SUS, geralmente vem à mente o posto de saúde ou a Farmácia Popular, os dois exemplos usados por João. 

Mas há também as “farmácias de alto custo”, chamadas oficialmente de Farmácias Públicas Estaduais. Lá são fornecidos remédios mais específicos (entenda as regras) e é exigida a apresentação de laudo médico e exames para a aprovação da entrega.

Na cidade de São Paulo, são apenas quatro unidades, nenhuma delas no extremo leste da capital. 

Para Gisele, este é o principal defeito do sistema: “Farmácia de alto custo não costuma ter em bairros da periferia. Faz muita falta. No meu caso, quem retira para mim é minha mãe.” 

A unidade usada pela família da Gisele fica no Belenzinho, a mais de 20 km de distância do bairro dela, a Vila Progresso.

Além da Rede Básica e farmácias populares, existe também o Dose Certa — uma rede de farmácias presente em cinco estações de Metrô

O site da Secretaria Municipal de Saúde reúne outras formas de obter remédios pelo SUS. Confira: 

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Há ainda o recurso da judicialização, em que o cidadão entra na Justiça para que o Estado forneça um medicamento para ele, conforme explica Alexandre da Silva,  doutor em saúde pública pela USP (Universidade de São Paulo). 

“Um grupo faz a avaliação, para ver o quanto é possível. Se é um medicamento que tem uma relevância para o bem-estar, para a saúde, as pessoas acabam obtendo. Infelizmente há alguns outros casos em que não é possível e aí os motivos são os mais diversos.”

Segundo Alexandre, embora o serviço funcione e esteja sendo utilizado por uma parcela considerável da população em São Paulo, o SUS ainda precisa rever suas listas e pensar em formas de se promover saúde. 

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Ele diz que a população não deve ficar restrita apenas ao remédio para o tratamento e prevenção das doenças. “Você tem que promover alguma forma de cuidado que a pessoa possa fazer com mais autonomia, para incorporar na rotina”, afirma o especialista. 

“É muito ruim, enquanto usuário, receber um diagnóstico de que vai ter que tomar esse remédio para sempre. Falta essa cultura na saúde de não apenas medicalizar a doença”, completa. 

Como utilizar a Farmácia Popular?

Qualquer pessoa pode utilizar o Programa Farmácia Popular, basta comparecer a um estabelecimento credenciado, apresentando os seguintes documentos:

  • Documento oficial com foto e número do CPF ou documento de identidade que conste o número do CPF;
  • Receita médica dentro do prazo de validade (365 para anticoncepcionais e 180 dias para os demais medicamentos ou fraldas geriátricas), tanto do SUS quanto particular.