O tempo do parto

Histórias de mulheres em busca do parto humanizado em SP

Publicação: 10/06/2019 13:37

Violência obstétrica, ausência de casas de parto, profissionais sem treinamento nas práticas de humanização: como mulheres tiveram ou tentaram ter um parto seguro e humanizado nas periferias da cidade?

Edição

Vagner de Alencar

Reportagem

Jéssica Bernardo, Lara Deus e Paula Rodrigues

Vídeo

Paula Rodrigues

“Na hora de fazer foi bom, né?”

Aos 23 anos, Janaína Normandia esperava pelo nascimento do primeiro filho quando ouviu a frase de um médico em um importante hospital privado, em São Paulo. A fala é uma entre as várias lembranças negativas daquele dia. O que era para ser um momento único, ficou marcado por uma série de traumas.

A amiga que a acompanhava não pôde ficar com ela durante o trabalho de parto. “Eu passei das 23h até às 10h do dia seguinte sozinha e em sofrimento”, relembra Janaína.

Depois de ter o parto induzido por medicamentos, quando finalmente Rafael nasceu, eles não puderam ficar juntos.

“Me mostraram meu neném, cortaram o cordão dele e levaram para receber assistência. Eu só vi o neném na terça-feira. Ele nasceu na segunda às 10h45”, ela conta.

Para que experiências como as de Janaína não se repitam, o Ministério da Saúde defende que a assistência ao parto coloque a mulher como a protagonista deste momento, por meio da portaria nº 569 de 2000.

A gestante deve ser ouvida e ter suas escolhas respeitadas. A equipe médica, por sua vez, deve ser acolhedora e fugir de medidas intervencionistas.

A prática é conhecida entre os profissionais de saúde como “humanização do parto”. Para quem mora nas periferias de São Paulo, no entanto, garantir uma assistência humanizada não é tão simples quanto deveria.

A ausência de casas de parto e a grande quantidade de profissionais sem treinamento nas práticas de humanização na rede pública de saúde abrem caminho para casos de abusos e maus-tratos.

E se em 2017 o Ministério da Saúde definiu casos de ameaças, gritos, chacotas e omissão de informação como violência obstétrica, agora, em 2019, um despacho emitido em maio proíbe o uso do termo para descrever essas situações.

Para quem opta por um parto em casa, na tentativa de fugir dos episódios de violência obstétrica, os altos custos formam uma nova barreira.

Nesta reportagem, a equipe do 32xSP revela a história de mulheres que tiveram ou tentaram ter um parto seguro e humanizado nas periferias da cidade.

CASA ANGELA E CASA DO PARTO

Grávida de 9 meses, Janaína Normandia optou por ter parto humanizado na segunda gestação após sofrer violência obstétrica na primeira (Paula Rodrigues/32xSP)

Dezesseis anos após o nascimento de Rafael, Janaína está grávida novamente e espera pelo caçula Benjamin. Apesar da experiência traumática durante o parto normal, ela não quer passar por uma cesárea. Ao buscar na internet sobre parto humanizado, encontrou a Casa Angela, centro de parto humanizado a poucos minutos de sua casa.

“No início, a opção era para o meu conforto. Com todas as pesquisas que eu fiz, entendi que é importante tanto pra mim quanto para a saúde do meu bebê”, explica ela.

A Casa Angela, localizada no distrito do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, é um dos dois centros de parto do município – assim como a Casa do Parto de Sapopemba, na zona leste.

As duas instituições são especializadas na realização de partos naturais e humanizados, que atendem às recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde).

“O parto humanizado respeita o tempo fisiológico da mulher. A gente vai fazer com que a mulher tenha autonomia de ficar na posição que ela fique mais confortável, vai incentivar que ela caminhe, se alimente, que ela tenha a presença de pessoas de confiança. Tudo isso para proporcionar para a mulher que nesse momento ela se sinta acolhida”
Amanda Meskauskas, coordenadora administrativa da Casa Angela

As casas são equipadas com ambulâncias e tem equipes especializadas no parto natural. Mas diferentemente do que acontece em um hospital, quem acompanha os nascimentos não é um médico. No lugar dele, as obstetrizes, conhecidas como “parteiras profissionais”, tomam a cena.

As casas de parto são uma alternativa entre um parto hospitalar e domiciliar, onde a gestante tem assistência de equipamentos médicos e auxilio de parteiras profissional (Divulgação)

Os profissionais formados em obstetrícia trabalham na assistência ao bebê e à mãe na hora do parto e foram incluídos no escopo da Rede Municipal de São Paulo em 2015.

Mais baratos para o sistema público que os médicos, são especializados no acompanhamento da gestante de risco habitual e têm uma formação voltada à saúde das mulheres.

“Vários ensaios clínicos comprovam que a assistência da parteira ajuda a manter os ótimos indicadores da saúde materna e infantil e melhora a satisfação das mulheres”
Carina Barreto, obstetriz que atua na Casa Angela

A procura de gestantes pelo espaço tem aumentado nos últimos anos. Em 2018, 440 partos foram feitos na Casa Angela. O número é 46% maior que o do ano anterior, quando 300 crianças nasceram pelas mãos das parteiras no local.

A fotógrafa Andressa Fontes Guedes, 27, é uma das que procuraram o espaço neste ano.

Moradora do Jardim Apuanã, na zona norte de São Paulo, Andressa queria que o parto de seu primeiro filho fosse em casa. Não conseguiu por falta de dinheiro.

Na Casa Angela, a mais de 30 km de sua casa, encontrou a opção de parto que sonhava.

Andressa Fontes Guedes, 27, teve o filho Zion na Casa Angela, a mais de 30 km de onde reside, no Jardim Apuanã, zona norte (Paula Rodrigues/32xSP)

A gestante fez o acompanhamento no local, mas no dia do parto, o filho Zion não quis esperar todo o caminho para encontrar a mãe.

Veio rápido, tão rápido, que nasceu dentro do táxi, na esquina para chegar na casa de parto. Quando Andressa chegou na Casa Angela, ela e Zion receberam atendimento. Mãe e filho não saíram um de perto do outro, como ela desejava.

Assim como ela, diversas gestantes saem de longe para procurar o atendimento nas casas de parto. Mas apesar do crescimento de demanda, a Prefeitura de São Paulo não tem planos de abrir novos centros de parto em breve.

PARTO EM CASA

Keila Luenda, 35, tentou fazer o parto do segundo filho em casa, mas não conseguiu devido ao valor alto cobrado pelo serviço (Arquivo pessoal)

“Meu esposo e eu estamos decididos em ter a bebê num parto domiciliar, porém estamos com dificuldades em juntar a grana”

O depoimento é de uma gestante em um grupo do Facebook voltado para o compartilhamento de experiências e informações sobre parto humanizado. Sem condições de arcar com os valores cobrados para um parto domiciliar, a mãe anunciou que faria uma rifa para juntar o dinheiro das despesas. Nos comentários, o apoio de outras gestantes.

A dificuldade de arcar com os gastos é comum para quem escolhe partos deste gênero.

Moradora da periferia de Osasco, Keila Luenda, 35, descobriu os custos de parir dentro de casa em grupos como aquele. Foi quando ela percebeu que não conseguiria fazer seu parto da maneira que imaginou.

“Era uma faixa de R$ 12 mil pra cima. Como eu vi que existia uma barreira de dinheiro, eu larguei de mão e fiquei superdecepcionada”, conta a recepcionista.

O parto domiciliar não está disponível no sistema público de saúde, mas o Ministério da Saúde exige que as gestantes respeitem algumas diretrizes se optarem por parir em casa. Entre elas, a de que a mulher seja acompanhada por uma enfermeira obstétrica ou uma obstetriz, e de que tenha acesso rápido a uma maternidade, caso precise de uma transferência.

Letícia Faustino, 23, sabe que é uma exceção por ter conseguido arcar com os custos. Decidida a parir em casa, no bairro da Parada Inglesa, zona norte da capital, ela gastou R$ 7 mil para pagar, em parcelas, a equipe com uma enfermeira, duas obstetrizes e uma doula.

“Foi sensacional. A gente revive isso quase todos os dias. Parir em casa foi a oitava maravilha do mundo. É sensacional você estar em seu ambiente”
Letícia Faustino, enfermeira

O nascimento do bebê foi acompanhado pelo marido de Letícia e pela filha mais velha do casal, 5.

A decisão de escolha do local do tipo de parto é um direito reprodutivo básico, como afirma a médica especialista em humanização do parto, Melania Amorim.

“Agora realmente, pelo fato de que não está disponível como política pública de saúde, ele [o parto domiciliar] só é acessível a quem pode pagar. Pra mulher periférica, não vai estar disponível na maioria dos lugares do país”, completa.

PARTO HUMANIZADO HOSPITALAR

Garantir que a gestante não seja vítima de maus-tratos, abusos ou desrespeito nos hospitais da rede municipal é uma preocupação da prefeitura.

“As boas práticas de nascimento humanizado estão sendo implantadas em todas as nossas maternidades. Nesse momento, a preocupação maior é que o parto humanizado ocorra tanto na casa de parto como nas nossas maternidades também”
Sonia Raquel Leal, coordenadora do programa Saúde da Mulher

Na prática, no entanto, vários hospitais e UBSs da cidade contam com profissionais sem treinamento nas práticas de humanização. Para Melania Amorim, um dos grandes desafios para que a rede pública pratique uma assistência ao parto humanizada é a resistência dos profissionais em rever aquilo que foi aprendido no passado.

“As pessoas foram formadas dentro desse modelo e existe uma resistência à mudança. Acham muito difícil reformar mesmo com uma evidência científica das boas práticas”. Ela cita, como exemplo, os resultados da pesquisa “Nascer no Brasil”, que entrevistou mais de 24 mil mulheres em 2014.

A pesquisa aponta que 54% das mulheres que realizaram parto vaginal foram submetidas a episiotomia – um corte na entre a região da vagina e ânus que serve para aumentar o canal vaginal e facilitar a saída do bebê.

Do total das entrevistadas, 92% pariram na posição deitada, sem poder escolher qual posição seria mais confortável para elas e 36% das mulheres receberam pressão fúndica, quando o médico pressiona a barriga da mulher.

Para Melania, “isso acontece exatamente porque as pessoas ficam perpetuando o modelo de assistência ao parto que elas aprenderam nos bancos da faculdade e que são marcados por intervenções desnecessárias e que podem ser prejudiciais”.

De acordo com a coordenação do programa Saúde da Mulher do município, na capital paulista existem 19 maternidades sob comando da prefeitura de São Paulo, onde as práticas do parto natural e humanizado estariam sendo implantadas.

Mas ao analisar as taxas de partos vaginais realizados nos hospitais, por exemplo, percebe-se que nas cinco regiões da cidade o índice de cesáreas é ainda muito maior que o recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

A organização afirma que o ideal seria uma taxa de 90% a 85% de parto natural. O Brasil é o vice-campeão em cesáreas: elas correspondem a 55% dos partos. No município, dos 69 locais que fizeram partos, 34 estavam acima da média brasileira de cesáreas.

PARTOS VAGINAIS E CESÁREAS EM SP

O centro expandido é campeão na proporção de cesáreas na cidade, e realiza 68,3% dos partos através da cirurgia. Ele é seguido pela zona oeste, em que 57,3% dos nascimentos acontecem assim, depois pela zona leste (47,2%) e norte, com 47,2% de cesáreas.

Em último lugar no ranking está a zona sul, com o melhor índice de partos vaginais da cidade. São 58,5% de partos vaginais contra 41,5% de cesáreas na região.

Entre os locais com taxas mais próximas daquela recomendada pela OMS, 83% estavam na periferia (29 hospitais ou casas de parto). Confira mapa abaixo.

Os dados são de um ranking divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura de São Paulo com todos os hospitais e instituições que fizeram mais de 50 partos em 2018. O órgão, no entanto, não divulga publicamente a taxa de episiotomia dos hospitais.

HOSPITAIS E CASAS DE PARTOS

PLANO DE PARTO

Preparar um plano de parto – documento em que se explicita todos os desejos da mulher em relação ao trabalho de parto –, pode ser uma forma de evitar intervenções indesejadas.

A elaboração do plano é recomendada pelo Ministério da Saúde e a gestante deve receber a orientação sobre como fazê-lo ainda durante as consultas de pré-natal na UBS. No dia do parto, seja ele uma cesárea ou um parto vaginal, a mãe deve entregar o documento para a instituição.

A prefeitura alega que a maioria dos hospitais já segue as práticas de um parto seguro, respeitando o plano das gestantes, mas não é difícil encontrar quem nunca tenha ouvido falar do documento.

A fotógrafa Andressa, que teve a história contada nessa reportagem, só ouviu falar do plano de parto quando encontrou a Casa Angela, em 2018.

Até então, enquanto fazia o pré-natal na UBS e AMA do Jardim Joamar, na zona norte, ninguém a havia informado sobre.

A falta de informação sobre o que pode ou não ser feito pela equipe médica no parto hospitalar torna as mulheres mais suscetíveis a se tornarem vítimas de abusos e maus-tratos:

“São exatamente as mulheres pobres e negras que são mais vítimas de violência obstétrica porque elas são as mais vulneráveis”
Melania Amorim, médica

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA

O Ministério da Saúde vetou o uso do termo “violência obstétrica” para tratar casos de negligência na assistência dada por médicos antes, durante e após o parto.

Para especialistas da área, a decisão é nociva para a implantação de mais práticas de partos humanizados, que vinha ganhando reforços com a criação de casas de parto em municípios como o de São Paulo, por exemplo.

O argumento dado pelo órgão federal é o de que “tanto o profissional de saúde quanto os de outras áreas, não tem a intencionalidade de prejudicar ou causar dano”.

O mesmo ponto é endossado em âmbito municipal. Para a coordenadora do programa Saúde da Mulher da Prefeitura de São Paulo, Sonia Raquel Leal, a equipe médica não foi formada para agredir uma mulher em trabalho de parto.

“Nós estamos num conceito político-social ou estamos no nosso meio de atuação que é saúde? Eu entendo o termo violência fora da saúde”
Sonia Raquel Leal, coordenadora do programa Saúde da Mulher da Prefeitura de São Paulo

Ainda segundo a coordenação do programa Saúde da Mulher do município, existem três importantes termos para tratar do assunto, são eles: negligência, imperícia e imprudência. Caso algum profissional da saúde tenha agido dessa forma, a gestante deve comunicar o hospital para que haja uma avaliação do ocorrido.

Acusações como essas são rebatidas tanto por profissionais de direito ou que advogam pelos direitos das mulheres, quanto por mulheres que já sofreram algum tipo de maltrato quando entraram em trabalho de parto.

Ouvida pelo portal Lunetas, a advogada Marina Ruzzi afirma que a decisão do Ministério da Saúde é inadequada porque:

“Nota-se que a preocupação do atual ministério não é de proteger mulheres e assegurar a elas seus direitos e garantias enquanto cidadãs, e sim de proteger a classe médica de acusações dessa natureza”
Marina Ruzzi, advogada

A opção para a gestante que sofreu algum tipo de maus-tratos ou desrespeito em relação a suas vontades antes, durante e após o parto é comunicar a equipe profissional tanto da UBS quanto do hospital ou casa de parto. Além disso, ela pode prestar sua queixa pelo portal de atendimento 156 da Prefeitura de São Paulo.

SERVIÇO

O QUE FAZ UM PARTO SER HUMANIZADO

Um parto humanizado abrange, principalmente, o direito às escolhas da gestante. As intervenções devem ser feitas apenas se há comprovações científicas de benefícios, não pelo conforto do médico. Afinal, o protagonismo do bebê não deve ser do profissional, mas sim da mãe e do bebê.

DICIONÁRIO DO PARTO HUMANIZADO

 

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