SEM ASFALTO

Nas periferias de São Paulo, ruas não têm pavimentação há 50 anos

“A pior parte é quando chove”: paulistanos falam como é morar em ruas de terra dentro da maior metrópole do país. Apesar dos atuais gastos da Prefeitura de São Paulo com recapeamento de vias e campanhas publicitárias, asfalto nunca chegou a ruas nos extremos da cidade

Edição

Eduardo Silva e Vagner de Alencar

Reportagem

Eduardo Silva, Giacomo Vicenzo, Luana Nunes, Miréia Lima e Sidney Pereira

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Eduardo Silva e Paula Rodrigues

Pneumonia, bronquite, alergias, rinite. A lista de doenças respiratórias que aflige a vida dos moradores da pequena rua Pedranópolis, na Vila Guilherme, zona norte de São Paulo, é extensa. Desde que a família da dona de casa Elisabeth Rocha, 73, se instalou no local, há mais de 50 anos, a via jamais foi asfaltada e fica enlameada, na época das chuvas, ou tomada pelo pó, quando o clima fica seco.

Falta de pavimentação na rua Pedranópolis causa poluição e doenças respiratórias (Sidney Pereira/32xSP)

A idosa conta que está se tratando de uma pneumonia, há um mês. “Acabei de vir do posto de saúde para pegar remédio e também comprei mel. Meus dois netos, de 6 e 12 anos, fazem inalação direto. É muita poeira”, diz. Ela alega que a situação é agravada pelo tráfego intenso de caminhões, poluindo o ar e provocando até rachaduras nas residências.

Nos meses chuvosos, todos sofrem com as inundações. O imóvel da dona de casa tem manchas de umidade e mofo nas paredes. O vigilante José Luiz Monteiro, 59, mantém um pequeno depósito no local e também reclama.

“Aqui vira uma lagoa quando chove. Tive que colocar um degrau na porta para segurar a água”
José Luiz Monteiro, 59, vigilante

Segundo Elisabeth, sua família já fez diversos pedidos de pavimentação da rua na subprefeitura da Vila Maria / Vila Guilherme, sem resultado.

A dona de casa Elisabeth Rocha já fez diversos pedidos de pavimentação da rua (Sidney Pereira/32xSP)

À reportagem, a subprefeitura informou, em duas ocasiões diferentes, que a via seria incluída no plano de pavimentação da prefeitura “o quanto antes”. As providências, no entanto, nunca aconteceram.

 

MAU CAMINHO

A cidade de São Paulo possui 17,2 mil km de vias pavimentadas e cerca de 65 mil logradouros registrados (entre ruas, avenidas, becos, praças, viadutos e outros), de acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (SMSO). O órgão também aponta a capital paulista como referência nacional em pavimentação.

Por outro lado, assim como acontece na rua Pedranópolis, outras regiões do município também enfrentam problemas provenientes da falta de asfaltamento.

Ruas esburacadas, vielas de terra batida ou partes de bairros inteiros sem asfaltamento são cenários comuns no dia a dia dos paulistanos que residem, principalmente, em bairros mais periféricos.

Outro problema são solicitações de tapa-buraco que demoram, em média, 49 dias para serem atendidas (período base: 2013-2016) – isso quando o atendimento acontece. Considerando as solicitações pendentes e acumuladas antes da gestão do ex-prefeito João Doria (PSDB) em 2017, o tempo médio atual para atendimento é de 100 dias.

Nos últimos meses de 2018, o investimento da administração municipal em obras de pavimentação tem consumido cerca de 25% das receitas correntes arrecadadas na capital paulista, como IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) e ISS (Imposto sobre Serviços).

Os dados são da Câmara Municipal de São Paulo (veja o documento mais recente, de agosto de 2018).

Ao longo de 2017, esse número se manteve como a segunda principal despesa do município, atrás apenas da quitação de precatórios com cerca de 30% do investimento.

Para o geógrafo Tomás Wissenbach, a pavimentação na cidade é uma atividade de manutenção contínua, que deve ser bem distribuída ao longo do tempo, sem sobressaltos.

“Isso vinha acontecendo, comprometendo em média 2% dos investimentos, o que me parecia adequado. Agora, atinge quase 20% – o que revela preferência da administração municipal por visibilidade no curto prazo. Certamente esse montante cresceu em detrimento de outras áreas essenciais”
Tomás Wissenbach, geógrafo e consultor da Fundação Tide Setubal

Wissenbach também diz que a aplicação de pavimentação e recapeamento deveria ter cobertura em toda a cidade, priorizando áreas mais desprovidas de infraestrutura urbana básica e promovendo adaptações em regiões ambientalmente frágeis.

“Junto a isso, o recapeamento deveria priorizar as faixas e corredores de ônibus, pois além de transportar a maior parte da população paulistana, sofrem maiores desgastes em função do peso dos veículos”, analisa o geógrafo.

Outro projeto de alto investimento é o programa Asfalto Novo, principal vitrine da gestão Doria, que teve investimentos de R$ 550 milhões e a proposta de recapear, até 2020, mais de 400 km de ruas e grandes avenidas na cidade de São Paulo.

Do valor total investido, 57% vêm do dinheiro arrecadado com multas de trânsito e o restante provém do Tesouro Municipal, de financiamentos e de investimentos da SPTrans com foco em corredores de ônibus.

 

PROPAGANDA MILIONÁRIA

De 2017 a 2018, a Prefeitura de São Paulo também dobrou seus gastos com publicidade. No primeiro semestre deste ano, a administração gastou R$ 73,8 milhões em peças publicitárias, ante R$ 36,3 milhões do ano passado.

Somente o Asfalto Novo consumiu R$ 28,9 milhões desses gastos (39%), sendo exibido em campanhas de TV (aberta e paga), rádio, jornais, internet e cinema.

Em detrimento disso, ações de divulgação de temas como educação, combate aos focos do mosquito transmissor da dengue e a reforma da previdência municipal receberam pouca atenção – R$ 2,99 milhões, R$ 2,98 milhões e R$ 2,77 milhões gastos por campanha, respectivamente.

Apesar do alto gasto com propaganda, por diversas vezes os serviços de recapeamento do Asfalto Novo apresentaram falhas e irregularidades, como buracos, vias entregues com desníveis e bueiros tapados parcial ou totalmente. Tais problemas foram apontados por vistorias do TCM (Tribunal de Contas do Município).

 

DENTRO DA CRATERA

Em Vargem Grande, bairro do extremo sul, apenas 1/4 das ruas têm asfalto (Luana Nunes/32xSP)

Com aproximadamente 37 mil moradores, o bairro Vargem Grande, situado em Parelheiros, no extremo sul da capital paulista, foi construído há quase 30 anos na parte norte da chamada “Cratera de Colônia”.

A área de 3,6 km de diâmetro e cerca de 300 metros de profundidade foi criada pelo impacto de um corpo celeste que se chocou contra o solo milhões de anos atrás.

A construção do bairro no local, no entanto, trouxe irregularidades em sua infraestrutura. De seus 66 logradouros, apenas 25% têm pavimentação.

“Eu moro justamente em uma rua que não é pavimentada. Em 2008 fizeram um calçamento ecológico em 1/4 das ruas do bairro, mas o restante não foi feito até hoje. Não temos perspectiva para ter asfalto aqui tão cedo”, afirma o comerciante Fernando “Bike”.

“O que fazem aqui, na verdade, é jogar entulho e restos de asfalto que vêm de outros lugares para amenizar o problema”
Fernando Bike, comerciante

A falta de pavimentação também causa pontos de inundação nas ruas, onde cerca de 200 casas na região são afetadas nos meses de chuva. Por outro lado, a região é considerada uma APA (Área de Proteção Ambiental), o que impõe algumas restrições para sua urbanização.

‘Rua 52’ em Vargem Grande, bairro do distrito de Parelheiros (Luana Nunes/32xSP)

De acordo com a subprefeitura de Parelheiros, o bairro de Vargem Grande foi contemplado com toda a infraestrutura existente no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 1) do Governo Federal e ainda não pode receber nenhum investimento por parte do Estado ou do Município.

“Estamos no aguardo dos recursos do PAC 2 para dar continuidade às obras. Vale destacar que o bairro está passando por desmatamentos e invasões em locais dentro da área de proteção ambiental e isso vai dificultar ainda mais o seu processo de regularização e a vinda de recursos do programa. Será preciso fazer demolição de todas as casas e obras encontradas em perímetro protegido”
Adailson de Oliveira, 66, subprefeito de Parelheiros

Oliveira também informa, via assessoria de comunicação, que está aguardando o posicionamento do Governo Federal quanto ao PAC 2, porém ainda não há informações de quando a subprefeitura terá esse recurso.

 

PROMESSA DE ELEIÇÃO

Rua dos Pinheiros, em Barragem, extremo sul de SP (Luana Nunes/32xSP)

Também localizado em Parelheiros, Barragem é outro exemplo de bairro sem pavimentação – tão comum para os moradores do extremo sul. A principal estrada que liga o distrito ao final de Barragem é asfaltada, mas todas demais ruas à margem do bairro são de terra.

“A pior parte é quando chove. Eu moro aqui há mais de 20 anos e já ouvi muitas promessas de melhorias em época de eleições, mas nunca fizeram nada. Se o tempo está seco, é poeira o dia todo. Se está chovendo, mal dá para sair de casa sem se sujar de lama”
Talita Aparecida, 32, cabeleireira

A falta de bueiros também causa transtornos em tempos de chuva. Pedras e lamas tomam conta das ruas, como conta o auxiliar de limpeza, Breno de Oliveira, 55.

“É lama, mato e lixo. Tudo que desce das ruas de cima fica aqui na minha porta e se eu não limpar, ninguém limpa. Tenho duas filhas pequenas que vão para a escola. É perigoso elas caírem e se machucarem”, diz.

Moradores já tentaram resolver o problema inúmeras vezes, mas não conseguem auxílio da prefeitura porque o local também é uma Área de Proteção Ambiental.

Sem poder contar com o poder público, a própria vizinhança se encarrega de fazer melhorias nas ruas onde moram, como conserto de valetas a céu aberto, buracos e corte de mato (que começa a invadir as ruas e atrair animais peçonhentos).

 

EQUILIBRANDO-SE NO MEIO FIO

Moradores de bairro no Jaraguá estão sem asfalto há cinco anos (Miréia Lima/32xSP)

“Em dias de chuva, as crianças precisam usar sacolas plásticas nos pés para ir à escola”, diz Marinês (que preferiu não dizer seu sobrenome), 42, moradora do bairro Parque das Nações Unidas, no Jaraguá, zona noroeste.

O relato já faz parte do cotidiano dos moradores que aguardam pelo asfalto há pelo menos cinco anos. Segundo Marinês, a pavimentação das ruas foi quitada juntamente com a liberação do bairro.

O loteamento, que ainda está sem escritura, foi liberado oficialmente em 2015, mas, de acordo com vizinhos, antes mesmo de 2013 o bairro já estava sendo habitado por alguns moradores. Passados três anos, a pavimentação ainda não foi realizada pela Prefeitura de São Paulo.

“Eles garantem que vão entregar o asfalto pronto em outubro, mas já faz seis meses que só colocaram o meio fio. Estamos esperando, né?”
Marinês, 42, moradora do Parque das Nações Unidas

Outra moradora, que prefere não ser identificada, relata alguns dos problemas que são enfrentados em dias de chuva, como acidentes, dificuldades de acesso e atolamento dos carros. “É triste, eu mesma já escorreguei na lama e caí. Tive que voltar para casa com a roupa toda suja”, lembra.

Bairro no Jaraguá está entregue aos buracos e à lama (Miréia Lima/32xSP)

Enquanto o asfalto não vem, os moradores se equilibram no meio fio, na tentativa de não cair na lama e conseguir chegar às ruas onde já tem pavimentação.

 

SEM DIREITO AO ASFALTO

Sem nome oficial, viela é uma travessa da avenida Souza Ramos na altura do nº 345 (Eduardo Silva/32xSP)

“Quando chove, fica cruel. O entulho que é jogado na rua desce tudo para baixo e a viela enche de lama”, conta o eletricista Roberto Pettinato, 57, morador de Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo.

A viela que Pettinato se refere não tem nome oficial e é conhecida na região como “rua particular”. O nome, de fato, condiz com sua situação – a via tem dono e, por isso, não pode ser asfaltada pela prefeitura.

Além da lama, moradores também sofrem com deslizamento de pedras e descarte irregular de lixo no local. “Aqui a gente cuida da rua porque é o caminho da molecada da escola. É uma rua sem saída, então a gente tem que cuidar porque a prefeitura não faz nada”, comenta o eletricista.

Roberto Pettinato mora na rua Particular há 23 anos (Eduardo Silva/32xSP)

Apesar de ser sem saída para carros, a viela é utilizada por pedestres para cortar caminho e ligar à rua Arroio do Pontão e à avenida Souza Ramos (a principal do distrito). Moradores também apontam dificuldades para entrar e sair de casa com seus carros.

“Fizemos um mutirão para construir um calçadão porque os carros dos moradores não conseguiam subir aqui. Com frequência, as pessoas caíam e se sujavam de barro”
Sérgio Juliani Rossi, 40, empreiteiro

Rossi ajudou na construção do calçadão, mas a iniciativa não foi suficiente para cobrir a rua inteira. Dada a necessidade, os moradores entregaram, em 2015, um abaixo-assinado com 30 assinaturas na subprefeitura de Cidade Tiradentes pedindo o asfaltamento da via. De lá para cá, outras petições iguais também foram protocoladas.

“A nossa luz, nossa água e o telefone chegam por essa viela, mas o asfalto não. Isso é que a gente não entende”, comenta a pedagoga Jussara Motta, 48.

Após diferentes pedidos e tentativas da comunidade, a subprefeitura se comprometeu a jogar fresa de asfalto (primeira camada do material) no local para amenizar o problema. A ação, porém, não pode ir muito além disso.

“Como o asfalto é um serviço público, não podemos atender uma área particular. A ação da subprefeitura ali é inviável. Porém, por se tratar de uma área que tem idosos e crianças, nós vamos fazer essa ação paliativa para as pessoas terem o mínimo de mobilidade às suas casas”, comenta o subprefeito de Cidade Tiradentes Oziel Souza, 38.

Oziel Souza é subprefeito de Cidade Tiradentes desde 2017 (Eduardo Silva/32xSP)

Há também a questão da mão de obra: a fresa é dada pela subprefeitura, mas sua implantação deve ser feita pelos moradores. Jussara conta que seu sogro possui um trator que serviria como alternativa para que a comunidade conseguisse nivelar a rua e espalhar a fresa. No entanto, o veículo não é próprio para isso.

“O asfalto se faz necessário, até por uma questão de higiene. Aqui tem muitos buracos e as pessoas jogam lixo porque acham que ninguém mora na viela. Mas tem casas até o final da rua, tem carros e crianças morando aqui”, finaliza a pedagoga.

Até a data desta publicação, a subprefeitura de Cidade Tiradentes não iniciou o uso da fresa na rua. O subprefeito diz que o prazo é até o final do ano, devido a outras demandas de obras na região, e que pode ser antecipado. Por ora, tudo permanece igual – com barro e lama.

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